Poeta e editora, foi a escritora portuguesa com mais obras censuradas. Julgada no Plenário pela «Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica», publicou as «Novas Cartas Portuguesas» e abriu na Graça o Botequim, onde festejou o 25 de Abril. Foi depois deputada.
Cultura e censurapoetadramaturgadiretora literária da Estúdios Corfundadora do Botequimdeputada
Nasceu
13 de setembro de 1923, Fajã de Baixo, São Miguel (Açores)
Nasceu na Fajã de Baixo, na ilha de São Miguel, a 13 de setembro de 1923, filha de uma professora; o pai emigrara para o Brasil, e em 1934 a mãe mudou-se com as filhas para Lisboa.3 Em 1945 aderiu ao MUD e apoiou depois as candidaturas presidenciais de Norton de Matos, em 1949, e de Humberto Delgado, em 1958; a PIDE tinha-a por «elemento adversário das Instituições».2 Num comício da campanha de Norton de Matos, em fevereiro de 1949, desmontou a tríade do Estado Novo, «Deus, Pátria e Família».3 Em 1953 arrendou o 5.º andar do n.º 52 da Rua Rodrigues Sampaio, onde viveu até ao fim da vida,3 e onde reuniu, nos anos 1950 e 1960, uma tertúlia de nomes da cultura e da literatura.9 Fez também parte do grupo de escritores e artistas do Café Gelo, no Rossio.13
Foi a escritora portuguesa com mais obras censuradas: os livros de poemas «Comunicação» e «O Vinho e a Lira», as peças «O Homúnculo», «A Pécora» e «O Encoberto».2 Em 1957 escreveu a «Queixa das Almas Jovens Censuradas», que hoje está nas paredes do Museu do Aljube,9 e recolheu, com Urbano Tavares Rodrigues, assinaturas para um manifesto de intelectuais contra a censura.3 A «Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica», que organizou, foi proibida pela censura pelo seu «caráter pornográfico» e levou-a a julgamento, à porta fechada, com o editor Fernando Ribeiro de Mello e alguns dos poetas antologiados.2 O julgamento, no Tribunal Plenário Criminal de Lisboa, na Boa-Hora, marcado para 3 de junho de 1969, só começou, depois de sucessivos adiamentos, a 17 de março de 1970, e a sentença, a 21, condenou Natália e o editor a 90 dias de prisão substituídos por multa, e mais 15 dias de multa.13
Em 1971 fundou o Botequim, no Largo da Graça, para onde passou a tertúlia — com Isabel Meyrelles, Júlia Marenha e Helena Roseta, segundo o Museu do Aljube e a FCSH+Lisboa; numa sociedade só com Isabel Meyrelles, segundo «O Essencial sobre Natália Correia».953 No mesmo ano era diretora literária da Estúdios Cor, que em abril de 1972 publicou as «Novas Cartas Portuguesas», de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa.2 O livro foi apreendido ao fim de três dias.10 Natália foi arguida como responsável editorial, mas o administrador-delegado da editora, Romeu de Melo, assumiu toda a responsabilidade, porque ela ainda cumpria a pena suspensa da Antologia.3 No julgamento das autoras foi testemunha a favor delas.14 Na noite de 24 para 25 de abril de 1974 estava no Botequim, a festejar a queda da ditadura.3
Em abril de 1976 dirigiu «O Século — Hoje», suplemento político de O Século que o Conselho da Revolução extinguiu ao nono número, sob proposta do Presidente Costa Gomes, por artigos que considerou «ofensivos e caluniosos» para o Conselho e para as Forças Armadas.3 Foi deputada à Assembleia da República eleita nas listas do PSD por Lisboa (1979–1983) e, como independente, nas do PRD (1987–1991).2 No primeiro debate sobre o aborto, em março de 1982, o deputado João Morgado, do CDS, disse que a Igreja proibia o aborto porque o ato sexual era «para se ver o nascimento de um filho». Natália respondeu-lhe com um poema satírico, manuscrito em papel timbrado da Assembleia, que fez circular pelas bancadas; não o leu no plenário, onde nesse dia nem estava.28 Na votação de novembro foi a única deputada do PSD a votar a favor do projeto do PCP, que foi rejeitado.2 Na televisão, a série «Mátria» (1986) foi dedicada às mulheres na cultura e na história portuguesas.311
Em 1991 o Presidente Mário Soares fê-la grande-oficial da Ordem da Liberdade.3 Morreu de ataque cardíaco na madrugada de 16 de março de 1993, em casa, depois de regressar do Botequim, e está sepultada no Cemitério dos Prazeres.3 Quatro meses depois, a Câmara de Lisboa deu o seu nome a uma rua da Graça, perto do Botequim, por sugestão de organizações de mulheres.11
A gravação de 1971 do poema de Natália Correia musicado por José Mário Branco, do LP «Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades», gravado em França, no exílio. A faixa chega ao YouTube pela distribuidora da editora, no canal automático do cantor.
Página original Licença padrão do YouTube — faixa entregue ao YouTube pela Parlophone Spain (℗ 1971 José Mário Branco, em licença exclusiva à Warner Music Portugal); embed permitido (oEmbed)
Warner Music Portugal (canal «José Mário Branco – Topic», do YouTube), no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ouvir».
Teledisco de «Saudades do Botequim», canção de José Cid dedicada a Natália Correia, do disco «Clube dos Corações Solitários do Capitão Cid»; acaba com uma gravação de Natália a dizer versos. Na descrição que a editora Acid Records publica com o mesmo teledisco lê-se que foi gravado no próprio Botequim, no Largo da Graça.
Página original Licença padrão do YouTube — embed permitido pelo canal oficial de José Cid
José Cid (canal oficial), no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
Se chegou a ser presa em 1966, como diz a Wikipédia; nenhuma outra fonte o refere.
O dia do primeiro debate sobre o aborto: 2 de março de 1982 (Assembleia da República) ou 3 de março (Polígrafo, que leu as atas). A FCSH põe a resposta a João Morgado no debate de 12 de novembro de 1982.
Onde ficava a Estúdios Cor, a editora de que foi diretora literária.
1Francisco Topa, A sádica nostalgia das fogueiras do Santo Ofício: o processo judicial contra a Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica. Historiæ (Rio Grande), 6 (1), pp. 122–141; Repositório Aberto da Universidade do Porto, 2015 — consultado a 4 de outubro de 2026A partir do processo (Torre do Tombo, Tribunal da Comarca de Lisboa, 4.º Juízo Criminal, processo n.º 90/1966), diz que o julgamento devia ter começado a 3 de junho de 1969, mas que, por sucessivos adiamentos, a primeira sessão só foi a 17 de março de 1970 e a sentença a 21; Natália Correia e o editor foram condenados a 90 dias de prisão substituídos por igual tempo de multa e mais 15 dias de multa, a 50$00 por dia.
2Natália Correia. Assembleia da República — consultado a 2 de outubro de 2026