Poeta e jornalista, uma das «Três Marias». A PIDE apreendeu-lhe «Minha Senhora de Mim» e três homens espancaram-na na rua; com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa escreveu as «Novas Cartas Portuguesas», que as levaram a tribunal — e à absolvição, a 7 de maio de 1974.
Cultura e censurapoetajornalistauma das «Três Marias»coautora das Novas Cartas Portuguesascofundadora do MLM
Nasceu em Lisboa em 1937. Frequentou a Faculdade de Letras, dirigiu o ABC Cine-Clube e foi jornalista em muitos títulos — A Capital, Diário de Notícias, Diário de Lisboa, O Século, República, Seara Nova, Vértice.13
Em 1971 publicou «Minha Senhora de Mim», nos Cadernos de Poesia da Dom Quixote: poemas na forma das cantigas de amigo, a defender o direito das mulheres a viver a sua sexualidade. A PIDE apreendeu o livro por ofensa «da moral tradicional da nação», o secretário de Estado da Informação ameaçou fechar a editora de Snu Abecassis se voltasse a publicá-la, e a autora foi espancada na rua por três homens e levada ao Hospital de Santa Maria.9
No dia seguinte havia o almoço semanal com Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno. Foi aí que Velho da Costa perguntou: «Se uma mulher sozinha causa toda esta confusão, este burburinho, este escândalo, o que aconteceria se fôssemos três?»9 As «Novas Cartas Portuguesas» saíram em 1972, a partir das cartas atribuídas a Mariana Alcoforado. A primeira edição foi destruída pela censura três dias depois, e as autoras acusadas de uma obra de «conteúdo insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública». Interrogadas separadamente, nunca disseram quem escrevera o quê. Simone de Beauvoir, Marguerite Duras, Doris Lessing e Iris Murdoch estiveram entre as vozes da campanha internacional de solidariedade.1
O julgamento começou a 25 de outubro de 1973 no Tribunal da Boa-Hora. A 7 de maio de 1974, já em liberdade, as três foram absolvidas.2 Segundo o Diário de Lisboa, saíram com cravos vermelhos ao peito, e Teresa Horta anunciou ali um movimento de libertação da mulher; o mesmo jornal chama «advogado de Maria Teresa Horta» ao dr. Ataíde Ferreira (a Wikipédia dá-lhe Duarte Vidal, que o jornal apresenta como advogado de Maria Isabel Barreno).6
Em 1975 publicou com Célia Metrass e Helena de Sá Medeiros «Aborto, direito ao nosso corpo», o primeiro livro sobre o aborto em Portugal.8 Militou no PCP entre 1975 e 1989 e foi chefe de redação da revista Mulheres; em 2022 foi feita grande-oficial da Ordem da Liberdade.5 Morreu em Lisboa a 4 de fevereiro de 2025, a última das Três Marias.4
A data da agressão na rua: o Museu do Aljube põe-na na véspera do almoço semanal das três escritoras em que nasceu, em maio de 1971, a ideia das «Novas Cartas Portuguesas», sem dar o dia; o Observador fala de violência «nas ruas», sem data nem local.