O Teatro Nacional D. Maria II, no topo norte do Rossio, em julho de 2022.Diego Delso, CC BY-SA 4.0
Santa Maria Maior
Teatro Nacional D. Maria II
O teatro nacional, no Rossio. Maria Barroso estreou-se aqui em 1944 e foi a «Benilde» de José Régio; em 1948, uma ordem da polícia e do Ministério da Educação tirou-a deste palco. A companhia que o geria trabalhou sob a censura até ao incêndio de 1964.
O Teatro Nacional abriu a 13 de abril de 1846, durante as comemorações do 27.º aniversário da rainha que lhe deu o nome. A ideia de um teatro nacional fora encomendada a Almeida Garrett por Passos Manuel, e o edifício ergueu-se no sítio do Palácio dos Estaus, a antiga sede da Inquisição, que um incêndio destruíra em 1836. Com a República passou a chamar-se Teatro Nacional Almeida Garrett; voltou a ser D. Maria II em 1939.1
De 1929 a 1964 — quase todo o Estado Novo — o teatro esteve entregue à companhia de Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro, a concessão mais longa da sua história. A companhia viveu, nas palavras do próprio teatro, num «equilíbrio instável com o regime»: um comissário da censura tinha a última palavra sobre cada peça, e textos como «Felizmente há luar!» e «O Motim» foram proibidos.1
Foi nesta companhia que Maria Barroso se estreou, em 1944, e foi a protagonista de «Benilde ou a Virgem Mãe», de José Régio, em 1947.2 Ao mesmo tempo dizia, em recitais por todo o país, os poetas da oposição. Em 1948, uma ordem «vinda da polícia e do Ministério da Educação» afastou-a do D. Maria II; Amélia Rey Colaço considerou-o um golpe fatal, que atingia o coração do teatro.43
Na madrugada de 2 de dezembro de 1964, horas depois de uma récita de «Macbeth», um incêndio destruiu o edifício; ficaram as paredes, o Salão Nobre e o arquivo.8910 Reconstruído com a traça antiga, o teatro reabriu a 11 de maio de 1978, e peças proibidas décadas antes, como «Felizmente há luar!», puderam por fim subir a este palco. A «Mãe Coragem», de Brecht, que Amélia Rey Colaço quisera pôr em cena contra a censura, estreou em 1986, numa coprodução do teatro, com Eunice Muñoz; a escritora Agustina Bessa-Luís foi diretora artística de 1990 a 1993.1
Em 1979, o diretor do teatro, Lima de Freitas, encomendou a Natália Correia uma peça para o quarto centenário da morte de Camões. Ela entregou «Erros Meus, Má Fortuna, Amor Ardente» em junho de 1980, mas o secretário de Estado da Cultura cortou o financiamento e a peça não foi produzida no Teatro Nacional; só subiu a um palco em 1988, pela mão da Fundação Calouste Gulbenkian.5
8Incêndio no Teatro Dona Maria II (Cena Aberta). RTP Arquivos — consultado a 4 de outubro de 2026Programa de 14 de dezembro de 1964, com imagens noturnas do incêndio, um ensaio de «Macbeth» e depoimentos de Amélia Rey Colaço, Mariana Rey Monteiro e outros atores; a ficha do programa «Reconstrução do Teatro Dona Maria II» situa o incêndio na madrugada de um dia de dezembro de 1964, com o número do dia em falta.
9Exposição: faz hoje 50 anos que o Dona Maria II ardeu. Sábado, 2014 — consultado a 4 de outubro de 2026O alerta do incêndio soou às 4h15 da manhã de 2 de dezembro de 1964; o fogo começou no palco onde, horas antes, se representara «Macbeth».