Percurso · Revolução · de metro e comboio
Os dias da liberdade
Do posto de comando do MFA à Assembleia Constituinte — a semana que mudou tudo, e as 27 mulheres que escreveram a Constituição
- Como se faz
- De metro e comboio
- Paragens
- 7
- Dificuldade:
- Fácil
Paragens
Mapa do percurso «Os dias da liberdade», com 7 paragens numeradas. A lista das paragens está a seguir ao mapa.
As paragens
Paragem 1: : 25 de abril — o posto de comandoHoje: Núcleo Museológico do Posto de Comando do MFA, no Quartel da Pontinha
Quartel da Pontinha, Av. do Regimento de Engenharia n.º 1, 1675-103 Pontinha
Num anexo deste quartel do Regimento de Engenharia n.º 1, preparado em segredo, Otelo Saraiva de Carvalho e um punhado de oficiais dirigiram as operações do 25 de Abril: janelas tapadas com cobertores, mesas com rádios e telefones, cartas militares de Lisboa nas paredes, e as escutas às redes da GNR, da Legião, da DGS e da PSP a chegar por um cabo montado às escondidas.4
Ao princípio da noite chegou a chaimite «Bula», com Marcelo Caetano e dois ministros, que ficaram aqui detidos até de manhã.67 Desde 2001, o posto de comando é núcleo museológico; reabriu em 2025, depois de obras.5
O que se vê hoje
O próprio posto de comando é núcleo museológico, num edifício classificado como monumento nacional.5
- 22 abr. 1974Montagem do Posto de Comando da Pontinha e da rede de escutas
- 24 abr. 1974Otelo instala o posto de comando do MFA na Pontinha
- 25 abr. 1974Spínola no Carmo; Caetano sai na chaimite «Bula»
Segundo capítulo do filme feito com as fotografias que Alfredo Cunha tirou em Lisboa no dia 25 de abril de 1974, com música de Rodrigo Leão e realização de Miguel Brugo, publicado pela Comissão a 14 de fevereiro de 2024. Segue o livro do mesmo nome, em que esta parte tem texto de Adelino Gomes e imagens da Ribeira das Naus, da Rua do Arsenal e do Largo do Carmo.
Página original Licença padrão do YouTube — embed permitido pelo canal oficial da Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril
Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
Até à paragem 2de metro, comboio ou autocarro
Paragem 2: : 26 de abril — «Ou todos ou ninguém»Hoje: Estabelecimento Prisional de Caxias
Estrada Militar, Caxias, 2784-513 Oeiras (concelho de Oeiras)

O Forte de Caxias, hoje Estabelecimento Prisional de Caxias, visto da encosta em 2022. GualdimG, CC BY-SA 4.0 Em Caxias, a polícia política resistiu, e a libertação atrasou-se: a Junta de Salvação Nacional queria separar os presos por motivos ideológicos dos acusados de crimes comuns. «Ou todos ou ninguém», responderam os presos. Perto da meia-noite chegou a ordem de libertação total; a saída começou às 00h30 de 27 de abril, e à uma da manhã já não havia presos políticos em Caxias.8
Entre as mulheres libertadas estavam as jornalistas Helena Neves e Elvira Nereu. A partir de 1938, era no Reduto Norte deste forte que as presas políticas passavam a detenção preventiva e cumpriam a pena.917
O que se vê hoje
Uma placa evocativa da libertação dos presos políticos foi descerrada a 26 de abril de 2019, com versos de Manuel Alegre: «Hei de passar nas cidades / Como o vento nas areias / e abrir todas as janelas / e abrir todas as cadeias».19 Na Estrada da Gibalta, junto à estação de Caxias, uma escultura em aço de Sérgio Vicente, inaugurada a 10 de junho de 2020, representa o número de presos que passaram pelo forte entre 1936 e 1974.2021
Conceição Matos e Domingos Abrantes contam juntos, num testemunho recolhido pelo museu a 7 de outubro de 2015, a clandestinidade, as prisões e a tortura. As palavras-chave do museu incluem a prisão do Aljube, Caxias, os interrogatórios da PIDE e a fuga de Caxias.
Página original Licença padrão do YouTube — embed permitido pelo canal oficial do Museu do Aljube
Museu do Aljube Resistência e Liberdade, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
Até à paragem 3de metro, comboio ou autocarro
Paragem 3: : 28 de abril — o comboio do exílioHoje: Estação ferroviária de Santa Apolónia
Avenida Infante D. Henrique / Rua dos Caminhos de Ferro, 1100-094 Lisboa

A fachada da Estação de Santa Apolónia, em junho de 2020. Vitor Oliveira, CC BY-SA 2.0 No dia 25, Mário Soares estava em Bona. Partiu de Paris a 27, no Sud Express, e chegou aqui no domingo, 28 de abril, com Maria Barroso, também fundadora do Partido Socialista.2 Esperava-os uma multidão; Soares falou de altifalante na mão, de uma varanda da estação.10 As fotografias da Casa Comum mostram na varanda, com eles, Ramos da Costa e Manuel Tito de Morais.11
A estação já tinha visto outra multidão: a que esperou Humberto Delgado em maio de 1958 e que a GNR dispersou à bastonada pela Baixa.12
O que se vê hoje
Uma lápide municipal com a efígie de Humberto Delgado, descerrada a 16 de maio de 2008.
- 28 abr. 1974Mário Soares chega do exílio a Santa Apolónia
- 16 maio 1958Chegada de Humberto Delgado a Santa Apolónia
Fernanda Gonçalves conta como soube da revolução em Aveiro, chegou no dia seguinte a Santa Apolónia num comboio cheio de amigos e seguiu para Caxias, onde milhares de pessoas esperavam a saída dos presos políticos. Lembra o corredor que a multidão mantinha aberto para as negociações com a PIDE, lá dentro.
Página original Licença padrão do YouTube — embed permitido pelo canal oficial da Câmara Municipal de Lisboa
Câmara Municipal de Lisboa, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
Até à paragem 4de metro, comboio ou autocarro
Paragem 4: : 30 de abril — Cunhal regressaHoje: Aeroporto Humberto Delgado
Alameda das Comunidades Portuguesas, 1700-111 Lisboa

O Terminal 1 do Aeroporto Humberto Delgado, na Portela, em 2021. Sharon Hahn Darlin, CC BY 2.0 Na madrugada de 25 de abril, militares da Escola Prática de Infantaria ocuparam o aeroporto e fecharam o espaço aéreo. Na manhã de 26, Marcelo Caetano e Américo Tomás partiram daqui, num avião da Força Aérea, para o Funchal.13
A 30 de abril chegou Álvaro Cunhal, ao fim de catorze anos de exílio, recebido por uma multidão; subiu a uma chaimite para lhe falar. Nesse dia, um comunicado da Junta de Salvação Nacional autorizou o regresso de todos os exilados políticos.10
Testemunho de Luís Cília recolhido pelo Museu do Aljube em janeiro de 2024. A biografia que o museu publica com ele lembra a deserção, o exílio em Paris a partir de 1964 e o regresso a Portugal a 30 de abril de 1974.
Página original Licença padrão do YouTube — embed permitido pelo canal oficial do Museu do Aljube
Museu do Aljube Resistência e Liberdade, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
Até à paragem 5de metro, comboio ou autocarro
Paragem 5: : 1 de maio de 1974 — a cidade na ruaHoje: Alameda D. Afonso Henriques / Fonte Monumental (Fonte Luminosa)
Alameda D. Afonso Henriques, 1900-006 Lisboa

A Fonte Monumental, ou Fonte Luminosa, no topo da Alameda D. Afonso Henriques, em setembro de 2014. Felix König, CC BY 3.0 A 27 de abril, um decreto fez do 1.º de Maio feriado nacional — a primeira conquista legal da revolução, nas palavras do Museu do Aljube.1 Em Lisboa, o desfile juntou-se aqui, na Alameda, e seguiu até ao estádio da antiga FNAT. A Comissão Comemorativa estima em cerca de um milhão as pessoas que saíram à rua em todo o país; o Centro de Documentação 25 de Abril, em cerca de quinhentas mil as que desfilaram em Lisboa.414 No dia seguinte, o «Diário de Lisboa» escrevia que cerca de um milhão de pessoas o tinha vivido «só na capital».18
Terceiro capítulo do filme de Alfredo Cunha (música de Rodrigo Leão, realização de Miguel Brugo), publicado pela Comissão a 14 de fevereiro de 2024, com fotografias dos meses que se seguiram à revolução. No livro, esta parte tem texto de Fernando Rosas e inclui o comício do primeiro 1.º de Maio em liberdade, no estádio da FNAT.
Página original Licença padrão do YouTube — embed permitido pelo canal oficial da Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril
Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
Até à paragem 6de metro, comboio ou autocarro
Paragem 6: : O estádio rebatizadoHoje: Parque de Jogos 1.º de Maio (Fundação INATEL)
Avenida do Rio de Janeiro, 1700-330 Lisboa

O Estádio 1.º de Maio, do INATEL — o antigo Estádio da FNAT —, em 2007. Paulo Juntas, CC BY-SA 2.5 O estádio pertencia à FNAT, a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, organismo do regime; nesse dia passou a chamar-se Estádio 1.º de Maio. Mário Soares e Álvaro Cunhal chegaram rodeados de milhares de pessoas e abraçaram-se no comício, sob o lema «Paz, Pão e Liberdade». A Comissão Comemorativa chama-lhe o primeiro e o último 1.º de Maio em unidade.4
Terceiro capítulo do filme de Alfredo Cunha (música de Rodrigo Leão, realização de Miguel Brugo), publicado pela Comissão a 14 de fevereiro de 2024, com fotografias dos meses que se seguiram à revolução. No livro, esta parte tem texto de Fernando Rosas e inclui o comício do primeiro 1.º de Maio em liberdade, no estádio da FNAT.
Página original Licença padrão do YouTube — embed permitido pelo canal oficial da Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril
Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
Até à paragem 7de metro, comboio ou autocarro
Paragem 7: : As 27 constituintesHoje: Assembleia da República
Palácio de São Bento, Largo das Cortes, Lisboa

O Palácio de São Bento, sede da Assembleia da República, em junho de 2014. Albarubescens, CC BY-SA 4.0 A 25 de abril de 1975, nas primeiras eleições livres, foram eleitas vinte mulheres entre 250 deputados à Assembleia Constituinte; com renúncias e substituições, vinte e sete chegaram a ter assento, entre elas Maria Alda Nogueira, Helena Roseta e Sophia de Mello Breyner Andresen. Só seis integraram comissões, e só uma presidiu a uma: Sophia, à da redação do preâmbulo. No plenário, os homens eram tratados por «Sr. Deputado»; as mulheres, muitas vezes, por «minha senhora».3
A Constituição aprovada aqui a 2 de abril de 1976 proíbe, no artigo 13.º, privilegiar ou prejudicar alguém em razão do sexo, e dá aos cônjuges, no artigo 36.º, direitos e deveres iguais.15 O Código Civil teve de ser revisto para deixar de fazer do marido o «chefe de família».16
O que se vê hoje
Bustos de duas deputadas: Maria Alda Nogueira, no claustro (CIG; escultor António Trindade, segundo a Wikipédia), e Natália Correia (segundo a Wikipédia, as duas únicas deputadas com busto na Assembleia).
- 25 abr. 1975Eleição da Assembleia Constituinte: 20 deputadas
- 2 jun. 1975Sessão inaugural da Assembleia Constituinte
- 12 nov. 1975Trabalhadores da construção civil cercam a Assembleia Constituinte
- 2 abr. 1976Assembleia Constituinte aprova a Constituição da República
Peça curta da série «Cápsula do Tempo», do Parlamento, dedicada às mulheres na Assembleia Constituinte de 1975–1976.
Página original Licença padrão do YouTube — embed permitido pelo canal oficial da Assembleia da República
Assembleia da República, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
História
O 25 de Abril não acabou no Carmo. Nos dias seguintes, os presos políticos saíram de Caxias, os exilados voltaram de comboio e de avião, e a 1 de maio de 1974 Lisboa encheu as ruas no primeiro Dia do Trabalhador em liberdade.1 Um ano depois, a 25 de abril de 1975, votou-se pela primeira vez em eleições livres e com sufrágio universal — e foram eleitas vinte mulheres para a Assembleia Constituinte.3
Este percurso segue esses dias, do quartel onde o MFA comandou a revolução ao palácio onde se escreveu a Constituição. Faz-se de metro e de comboio, e pode fazer-se por partes.
Antes de ir
- Partida
- Quartel da Pontinha (Posto de Comando do MFA) — Metro Pontinha (linha azul)
- Chegada
- Palácio de São Bento (Assembleia da República) — Elétrico 28 (paragem Calçada da Estrela); Metro Rato (linha amarela), a dez minutos a pé
- Acessibilidade do caminho
- Um percurso de dia inteiro, de metro e comboio, que se pode fazer por partes. Caxias fica em Oeiras, na linha de comboio de Cascais, que parte do Cais do Sodré; o resto é em Lisboa, perto de estações de metro. Quem usa cadeira de rodas deve confirmar no sítio do Metropolitano de Lisboa e da CP que estações têm elevador.
O percurso, as fotografias e o mapa ficam no telemóvel, para abrir em qualquer lado.
Datas
16 maio 1958
22 abr. 1974
24 abr. 1974
25 abr. 1974
Mais 8 datas
26 abr. 1974
28 abr. 1974
30 abr. 1974
1 maio 1974
25 abr. 1975
2 jun. 1975
12 nov. 1975
2 abr. 1976
Fontes21
- 11º de Maio – Dia do Trabalhador. Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC) — consultado a 2 de outubro de 2026
- 2A vida de Mário Soares, em momentos (cronologia). Fundação Mário Soares e Maria Barroso — consultado a 3 de outubro de 2026
- 3As mulheres na Constituinte de 1975-1976. Assembleia da República — consultado a 2 de outubro de 2026
- 4Operação Viragem Histórica. Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
- 5Núcleo Museológico do Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas (PCMFA). Câmara Municipal de Odivelas — consultado a 2 de outubro de 2026
- 6Cronologia do 25 de Abril, por Jofre Alves (blogue Abril de Novo, 2010), na Biblioteca Digital do CD25A. Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra — consultado a 2 de outubro de 2026
- 7Movimentações do dia 25 de Abril. Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
- 8Álvaro Arranja, «A libertação dos presos políticos na revolução de Abril». Esquerda.net — consultado a 2 de outubro de 2026
- 9Cárceres do império. Memória Comum – Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos — consultado a 2 de outubro de 2026
- 10O regresso dos exilados. Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
- 11Chegada de Mário Soares do exílio, em Santa Apolónia (fotografia, cota 10182.129). Casa Comum – Fundação Mário Soares e Maria Barroso — consultado a 2 de outubro de 2026
- 12Delgado: Um vendaval varreu o País (João Paulo Guerra). esquerda.net — consultado a 2 de outubro de 2026
- 13Aeroporto de Lisboa (Lugares de Abril). Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
- 14O 25 de Abril para os mais novos – Cronologia hora a hora. Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra — consultado a 2 de outubro de 2026
- 15Constituição da República Portuguesa – texto originário, aprovado em 2 de abril de 1976. Assembleia da República — consultado a 2 de outubro de 2026
- 16A revisão do Código Civil e os Direitos das Mulheres (1977). Assembleia da República — consultado a 2 de outubro de 2026
- 17Forte de Caxias (Prisões da Ditadura). Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
- 18Diário de Lisboa, n.º 18 445, de 2 de maio de 1974 (p. 1: «O 1.º de Maio da libertação. Festa da fraternidade do povo português»). Casa Comum – Fundação Mário Soares e Maria Barroso (arquivo Ruella Ramos) — consultado a 4 de outubro de 2026«Cerca de um milhão de pessoas viveu, só na capital, essa experiência»; a fotografia da primeira página mostra a multidão no Estádio 1.º de Maio, ex-FNAT.
- 19Evocação da Libertação dos Presos Políticos da Prisão de Caxias. Museu do Aljube Resistência e Liberdade (26/4/2019) — consultado a 2 de outubro de 2026
- 2010 de Junho. Oeiras inaugura escultura evocativa da libertação dos presos de Caxias. Observador (8/6/2020) — consultado a 2 de outubro de 2026
- 21A fuga de Caxias, um acto de resistência antifascista rumo à vitória, foi há 60 anos. URAP – União de Resistentes Antifascistas Portugueses — consultado a 2 de outubro de 2026
Outros percursos
Revolução
O dia inicial
O 25 de abril de 1974 hora a hora, do Terreiro do Paço ao Carmo e à porta da polícia política
- Distância
- 2,3 km
- Duração
- 1 h 30 min
- Paragens
- 7 paragens
Mulheres
Graça, a colina das mulheres
Costureiras em greve, uma propagandista republicana, uma cadeia de mulheres, um bar e uma poeta — a Graça contada por elas
- Distância
- 1,7 km
- Duração
- 1 h 15 min
- Paragens
- 6 paragens
Repressão
O Estado Novo, explicado
Como uma ditadura durou 48 anos: o chefe, a fachada, o partido único, a família, o trabalho e a propaganda — de São Bento aos Restauradores
- Distância
- 4,6 km
- Duração
- 2 h 20 min
- Paragens
- 9 paragens