Percurso · Cultura e censura · a pé
Palavras proibidas
Cafés, igrejas, palcos e redações onde se disse o que a censura não deixava — do «Obviamente, demito-o!» à «Grândola» no Coliseu
- Distância
- 3,5 km
- Duração
- 1 h 55 min
- Paragens
- 8
- Dificuldade:
- Média
Paragens
Mapa do percurso «Palavras proibidas», com 8 paragens numeradas. A lista das paragens está a seguir ao mapa.
As paragens
Paragem 1: : «Obviamente, demito-o!»Hoje: Uma agência da Caixa Geral de Depósitos
Praça D. Pedro IV (Rossio), Lisboa — número de polícia por confirmar

O Rossio (Praça de D. Pedro IV) visto do Elevador de Santa Justa, em 2007. Szilas, Domínio público A 10 de maio de 1958, no primeiro andar do Café Chave d'Ouro, no Rossio, a candidatura do general Humberto Delgado à Presidência da República foi apresentada à imprensa, também à estrangeira. Perguntaram-lhe o que faria a Salazar se fosse eleito. «Obviamente, demito-o!» — a resposta incendiou o país e marcou a campanha.23
O café, fundado em 1919 e ponto de encontro da oposição, deu lugar em 1961 a uma agência bancária.4
Até à paragem 2130 m · 2 min a pé
Paragem 2: : O café dos dissidentesHoje: Gelo, marisqueira desde 2024
Praça D. Pedro IV, 64 (Rossio), com entrada também pela Rua 1.º de Dezembro, 1100-201 Lisboa

A fonte sul do Rossio, a coluna de D. Pedro IV e o Teatro Nacional D. Maria II, em 2018. Berthold Werner, CC BY-SA 4.0 Entre 1957 e 1962, quase trinta poetas, pintores e editores juntavam-se na sala das traseiras do Café Gelo — entre eles Herberto Helder, Mário Cesariny, Luiz Pacheco, António José Forte, Manuel de Lima e Helder Macedo. Na «Pirâmide» (1959–1960), uma das duas revistas que fizeram, escreveram também Natália Correia e Pedro Oom. Não tinham programa nem escola, contou Luiz Pacheco: havia ali «um espaço de convívio em liberdade plena».5
As reuniões acabaram em 1962. No 1.º de Maio desse ano, durante a manifestação reprimida na Baixa, a polícia entrou no café e espancou quem lá estava — «os açucareiros voaram», contou Luiz Pacheco —, e dias depois o gerente disse ao grupo que já não podia ali ficar.5
O que se vê hoje
Segundo a Wikipédia (passagem sem fonte), uma placa à porta do lado do Rossio resume a história do café, evocando o regicídio e a contestação ao regime de Salazar — por confirmar no local.
Até à paragem 3210 m · 3 min a pé
Paragem 3: : «Vemos, ouvimos e lemos»Hoje: Igreja de São Domingos
Largo de São Domingos, 1169-060 Lisboa

A Igreja de São Domingos e o largo em frente, em julho de 2017. Palickap, CC BY-SA 4.0 Na noite de 31 de dezembro de 1968, depois da missa do cardeal Cerejeira, mais de cem católicos ficaram nesta igreja em vigília contra a guerra colonial, até às seis da manhã do Dia Mundial da Paz. Para essa noite, Sophia de Mello Breyner Andresen escreveu a «Cantata da Paz», que Francisco Fanhais cantou: «Vemos, ouvimos e lemos / Não podemos ignorar».6
Testemunho de Francisco Fanhais recolhido pelo Museu do Aljube a 15 de janeiro de 2020. Pelas palavras-chave do museu, fala dos católicos e da Igreja, da PIDE, da guerra colonial, da LUAR, da música de intervenção e da censura.
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Museu do Aljube Resistência e Liberdade, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
Até à paragem 4400 m · 6 min a pé
Paragem 4: : A sala que cantou a «Grândola»Hoje: Coliseu dos Recreios
Rua das Portas de Santo Antão, 92-104, 1150-268 Lisboa

A plateia do Coliseu dos Recreios, em 2010. Diogomedina, CC0 1.0 A 29 de março de 1974, o I Encontro da Canção Portuguesa encheu o Coliseu, com pides e polícias à paisana a vigiar o palco e a plateia. Em cima da hora, a censura cortou letras e proibiu canções — entre elas «Venham Mais Cinco» e «A Morte Saiu à Rua», de José Afonso.7 José Afonso cantou então «Grândola, Vila Morena», a sala cantou com ele, e no fim milhares de pessoas gritaram «abaixo a repressão!».8
Menos de um mês depois, a mesma canção passava na rádio como senha da revolução.
- 29 mar. 1974I Encontro da Canção Portuguesa no Coliseu
- 25 abr. 1974«Grândola, Vila Morena» na Rádio Renascença confirma a revolução
José Afonso canta «Grândola, Vila Morena» no concerto do Coliseu dos Recreios de 29 de janeiro de 1983, num excerto publicado pela Associação José Afonso. Foi um dos últimos grandes concertos do cantor, já doente, e a canção que servira de senha ao 25 de Abril foi cantada com a sala.
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Associação José Afonso, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
Até à paragem 51,2 km · 20 min a pé
Paragem 5: : O prémio que fechou a casa dos escritoresRua da Escola Politécnica, 20, 1.º Esq., 1250 Lisboa
Rua da Escola Politécnica, 20, 1.º Esq., 1250 Lisboa

A Rua da Escola Politécnica, onde ficava a sede da Sociedade Portuguesa de Escritores, em 2017. Dguendel, CC BY 4.0 Em maio de 1965, um júri da Sociedade Portuguesa de Escritores — Alexandre Pinheiro Torres, Augusto Abelaira, Fernanda Botelho, João Gaspar Simões e Manuel da Fonseca — deu o Grande Prémio de Novelística a «Luuanda», de José Luandino Vieira, que estava preso no Tarrafal por ligação ao MPLA.9
A 21 de maio, o ministro da Educação Nacional extinguiu a Sociedade. Nessa noite, a sede, no primeiro andar do n.º 20 desta rua, foi assaltada e saqueada por «desconhecidos» apoiados pela PIDE, que deixaram à porta um letreiro: «Agência dos terroristas na Metrópole». Três jurados foram presos; Fernanda Botelho, a única mulher do júri, foi interrogada.910
Até à paragem 6650 m · 10 min a pé
Paragem 6: : «De mulher para mulher»Hoje: Palácio Lançada, Rua de O Século
Rua de O Século, 63, 1200-433 Lisboa

A Rua de O Século, onde funcionou a redação do jornal, em dezembro de 2019. Sergei Gussev, CC BY 2.0 Neste palácio funcionou o jornal O Século. Em 1908 entrou para a redação Virgínia Quaresma, uma das primeiras repórteres portuguesas.11 Vinte anos depois, Maria Lamas passou a dirigir o suplemento «Modas e Bordados», que escrevia «de mulher para mulher»; em 1930 organizou aqui a exposição «Mulheres Portuguesas», sob o lema «Sejamos inteligentemente mulheres».1213
Em 1947, o regime obrigou-a a escolher entre a revista e o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, a que presidia. Escolheu o Conselho.14
Até à paragem 7600 m · 9 min a pé
Paragem 7: : O jornal que não mandou as provasRua da Misericórdia, 116, 1200-271 Lisboa
Rua da Misericórdia, 116, 1200-271 Lisboa

A redação do jornal «República», segundo a legenda do arquivo Anefo, a 11 de fevereiro de 1975 — três meses antes do «caso República». Fotografia de Rob Mieremet. Rob Mieremet / Anefo, CC0 1.0 No n.º 116 da Rua da Misericórdia ficava o República, o diário da oposição democrática — quase em frente da censura, que desde 1969 trabalhava no n.º 125.15 Dois dos seus jornalistas, Álvaro Guerra e Carlos Albino, ligaram o MFA ao programa de rádio que transmitiria a senha da revolução.1715
A 25 de abril de 1974, o diretor, Raul Rego, recusou-se a mandar as provas ao Exame Prévio. O jornal saiu com um rodapé na primeira página: «Este jornal não foi visado por qualquer Comissão de Censura».15
Até à paragem 8270 m · 4 min a pé
Paragem 8: : A primeira repórterRua do Norte, 3 (esquina com a Praça de Luís de Camões), Lisboa
Rua do Norte, 3 (esquina com a Praça de Luís de Camões), Lisboa

A Rua do Norte, junto à Praça de Luís de Camões, em março de 2020. Daniel, CC BY 2.0 Em 1910, Virgínia Quaresma passou para «A Capital», o diário republicano da noite que tinha a redação no n.º 3 da Rua do Norte, nesta esquina; foi morar mesmo em frente.11 Foi «A Capital» que, a 29 de abril de 1911, reproduziu a sentença que mandava recensear Carolina Beatriz Ângelo e lhe chamou «uma vitória para o feminismo nacional».18
Em agosto desse ano, Virgínia disse ao jornal que adorava a profissão e que queria ver outras mulheres a ganhar a vida no jornalismo.11
História
Durante quase meio século, nada se publicava em Portugal sem passar pela censura: os jornais mandavam as provas e recebiam-nas cortadas a lápis azul.1 As palavras que importavam disseram-se noutros sítios — à mesa de um café, numa igreja ao fim do ano, no palco de um espetáculo vigiado pela polícia, numa redação que um dia se recusou a mandar as provas.
Este percurso vai do Rossio ao Chiado por esses sítios, e pelas mulheres que neles escreveram, cantaram e falaram: Natália Correia, Sophia de Mello Breyner Andresen, Fernanda Botelho, Maria Lamas, Virgínia Quaresma.
Antes de ir
- Partida
- Rossio (Praça de D. Pedro IV) — Metro Rossio (linha verde); comboio no Rossio
- Chegada
- Largo de Camões, no Chiado — Metro Baixa-Chiado (linhas azul e verde); elétrico 28
- Acessibilidade do caminho
- O Rossio e as Portas de Santo Antão são planos. Do Coliseu à Rua da Escola Politécnica sobe-se muito, pela Calçada da Glória ou pelas ruas do Bairro Alto, em calçada. Do Príncipe Real ao Largo de Camões o caminho desce, com passeios estreitos no Bairro Alto.
O percurso, as fotografias e o mapa ficam no telemóvel, para abrir em qualquer lado.
Datas
28 abr. 1911
1928
17 maio 1930
10 maio 1958
Mais 7 datas
16 maio 1958
1 maio 1962
21 maio 1965
31 dez. 1968
29 mar. 1974
25 abr. 1974
26 abr. 1974
Notas sobre as fontes1
- O ponto exato do antigo Café Chave d'Ouro no Rossio: a paragem fica na praça.
Sabe mais, ou tem um documento? Conte-nos.
Fontes18
- 1Os censores da imprensa (Joaquim Cardoso Gomes), JJ – Jornalismo & Jornalistas n.º 57, jan./jun. 2014. Clube de Jornalistas (PDF no Centro de Documentação 25 de Abril, Univ. Coimbra) — consultado a 2 de outubro de 2026
- 2Delgado: Um vendaval varreu o País (João Paulo Guerra). esquerda.net — consultado a 2 de outubro de 2026
- 3Candidatura de Humberto Delgado – uma jornada de resistência. Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC) — consultado a 2 de outubro de 2026
- 4Café Chave d'Ouro. Restos de Colecção (blogue) — consultado a 2 de outubro de 2026
- 5Joana Emídio Marques, Café Gelo: os 60 anos de um grupo que nunca existiu. Observador, 2017 — consultado a 3 de outubro de 2026
- 6A Vigília de São Domingos. Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
- 7Pedro Tadeu, «Fascistas! Fascistas!» gritaram cinco mil pessoas no Coliseu, no mês antes de Abril. Mensagem de Lisboa, 2024 — consultado a 3 de outubro de 2026
- 8Canção Intervenção, 28/03/1974 (cronologia). Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
- 9Breve memorial da Sociedade Portuguesa de Escritores (SPE). Associação Portuguesa de Escritores — consultado a 2 de outubro de 2026
- 10Como a PIDE destruiu a Sociedade Portuguesa de Escritores. RTP Ensina — consultado a 2 de outubro de 2026
- 11A primeira jornalista de reportagem portuguesa numa rua de Caselas. Toponímia de Lisboa (Câmara Municipal de Lisboa) — consultado a 2 de outubro de 2026
- 12Maria Lamas. Wikipédia — consultado a 2 de outubro de 2026
- 13Maria Lamas, a ativista pelos direitos das mulheres (Virgínia Baptista, IHC – NOVA FCSH). RUN – Repositório da Universidade Nova de Lisboa — consultado a 2 de outubro de 2026
- 14Mulheres pela Igualdade (biografias). CIG – Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género — consultado a 2 de outubro de 2026
- 15O jornal República e a Rua da Misericórdia. Toponímia de Lisboa, 2019 — consultado a 2 de outubro de 2026
- 16Sede do Jornal República (Lugares de Abril). Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
- 17Preparativos para a transmissão da senha, 23/04/1974 (cronologia). Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
- 18Carolina Beatriz Ângelo. Assembleia da República — consultado a 2 de outubro de 2026
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