A Rua Rodrigues Sampaio, onde morou Natália Correia, vista do alto, em 2011.deror_avi, CC BY-SA 3.0
Santo António
Casa de Natália Correia
Natália Correia viveu no 5.º andar do n.º 52 de 1953 até morrer, em 1993. Nos anos 1950 e 1960 a casa foi lugar das suas tertúlias e, em 1955, de uma estreia teatral à porta fechada: a tradução dela de «Huis clos», de Sartre.
A 31 de julho de 1953, Natália Correia casou com Alfredo Machado, dono do Hotel Império, e arrendou o 5.º andar do n.º 52 da Rua Rodrigues Sampaio, «para onde se muda e fixa residência até ao fim da vida».1
Nos anos 1950 e 1960, esta casa foi o centro das tertúlias que juntavam nomes da cultura e da literatura portuguesas; a partir de 1971, Natália levou-as para o Botequim, na Graça, que fundou, segundo o Museu do Aljube, com Isabel Meyrelles, Júlia Marenha e Helena Roseta.3 Em julho de 1955 estreou aqui, à porta fechada, a sua tradução de «Huis clos», de Sartre, encenada por Carlos Wallenstein, com cenografia de João Santiago e com Alexandre de Castro Freire, Maria Ferreira e Manuel de Lima a representar.15 Vivia aqui quando publicou, em 1966, a «Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica», que a censura apreendeu e que a levou ao Tribunal Plenário: o julgamento, marcado para 3 de junho de 1969, só começou a 17 de março de 1970, e a sentença de 21 condenou-a a 90 dias de prisão, substituídos por multa.6 No processo das «Novas Cartas Portuguesas», publicadas em 1972 pela Estúdios Cor, de que era diretora literária, foi arguida como responsável editorial.1
Morreu nesta casa, de um ataque cardíaco, na madrugada de 16 de março de 1993, depois de voltar do Botequim. A casa e o recheio ficaram intocados até à morte do marido, Dórdio Guimarães, em 1997; nesse ano foi esvaziada de milhares de livros e manuscritos e de centenas de obras de arte, de Vieira da Silva a Almada Negreiros e Mário Cesariny. Por disposição testamentária de Dórdio Guimarães, o espólio está desde 2011 em Ponta Delgada: os papéis e os livros na Biblioteca Pública e Arquivo Regional, as obras de arte e algum mobiliário no Museu Carlos Machado.1
A gravação de 1971 do poema de Natália Correia musicado por José Mário Branco, do LP «Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades», gravado em França, no exílio. A faixa chega ao YouTube pela distribuidora da editora, no canal automático do cantor.
Página original Licença padrão do YouTube — faixa entregue ao YouTube pela Parlophone Spain (℗ 1971 José Mário Branco, em licença exclusiva à Warner Music Portugal); embed permitido (oEmbed)
Warner Music Portugal (canal «José Mário Branco – Topic», do YouTube), no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ouvir».
Notas sobre as fontes3
Se o prédio tem alguma placa que lembre Natália Correia.
O ponto no mapa vem de um consultório com morada no n.º 52 (OpenStreetMap), não da entrada do prédio.
A pena pela «Antologia»: 90 dias de prisão substituídos por igual tempo de multa, e mais 15 dias de multa, segundo Francisco Topa (2015), que leu a sentença de 21 de março de 1970 no processo (Torre do Tombo, 4.º Juízo Criminal de Lisboa, processo n.º 90/1966), e a cronologia de Luiz Fagundes Duarte; mas o Diário de Lisboa de 21 de março de 1970 noticiou 45 dias substituíveis por multa, com pena suspensa por três anos, e o Museu do Aljube também fala de pena suspensa (situando-a em 1966, o ano do livro). O texto segue Topa, que cita a folha do processo; só a sentença (f. 403v) fecha a questão.
4Natália Correia. Assembleia da República — consultado a 2 de outubro de 2026
5Jean-Paul Sartre, Huis clos suivi de Les Mouches. Gallimard (coleção Folio) — consultado a 3 de outubro de 2026A ficha do editor de Sartre, com o título da peça tal como ele a publicou: «Huis clos».
6Francisco Topa, A sádica nostalgia das fogueiras do Santo Ofício: o processo judicial contra a Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica. Historiæ (Rio Grande), 6 (1), pp. 122–141; Repositório Aberto da Universidade do Porto, 2015 — consultado a 4 de outubro de 2026A partir do processo (Torre do Tombo, Tribunal da Comarca de Lisboa, 4.º Juízo Criminal, processo n.º 90/1966), diz que o julgamento devia ter começado a 3 de junho de 1969, mas que, por sucessivos adiamentos, a primeira sessão só foi a 17 de março de 1970 e a sentença a 21; Natália Correia e o editor foram condenados a 90 dias de prisão substituídos por igual tempo de multa e mais 15 dias de multa, a 50$00 por dia.
Coordenadas: OpenStreetMap (Nominatim), consultado a 2 de outubro de 2026.