O Forte de Caxias, hoje Estabelecimento Prisional de Caxias, visto da encosta em 2022.GualdimG, CC BY-SA 4.0
União das Freguesias de Oeiras e São Julião da Barra, Paço de Arcos e Caxias (Oeiras)
Forte de Caxias — a prisão política
A prisão política da região de Lisboa: o Reduto Sul para homens a partir de 1935, o Reduto Norte para mulheres a partir de 1938. Daqui fugiram oito presos no carro blindado de Salazar, em 1961, e daqui saíram os últimos presos políticos, na madrugada de 27 de abril de 1974.
Hoje: Estabelecimento Prisional de CaxiasHá uma marca no local
O forte de Caxias, em Oeiras, era prisão desde 1916. Segundo o projeto Memória Comum, o Reduto Sul passou para a polícia política em janeiro de 1935, para homens, e o Reduto Norte em maio de 1938, para mulheres.1 A partir daí, as presas políticas passavam aqui toda a detenção preventiva e o cumprimento da pena.2
O regime era duro para todos — isolamento, cortes de correspondência e de visitas, castigos em «casamatas lodosas, sem ar nem luz» — e particularmente para as presas. A Comissão Comemorativa dos 50 Anos do 25 de Abril descreve-o: duas a duas na mesma sala, durante meses ou anos, duas horas de recreio por dia sempre com a mesma companheira, refeições na cela, e as visitas num parlatório com um vidro de permeio, sem poderem abraçar os filhos. Algumas tinham consigo filhos pequenos, outras deram à luz presas.2
Por aqui passaram, entre muitas outras, Maria Lamas, mantida isolada durante meses em 1949 e de novo presa aqui em 1950–1951 e em 1953;36 a médica Cesina Bermudes; Albina Fernandes, que ficou com os filhos de seis e dois anos depois de presa em dezembro de 1961;9 e Maria Alda Nogueira, que cumpriu quase dez anos seguidos de pena.10 Com Sofia Ferreira, Alda Nogueira dirigia na prisão a célula do PCP, e em 1961 fez sair daqui o «Manifesto de Caxias», treze cartas dirigidas às organizações de mulheres de todo o mundo sobre as condições das presas.2829
A 4 de dezembro de 1961, pelas 9h35 — a hora do relatório oficial da prisão —, oito militantes comunistas fugiram do fosso do Reduto Norte no Chrysler Imperial blindado que tinha servido Salazar, conduzido por António Tereso — que durante meses se fizera passar por colaborador dos guardas. A fuga durou pouco mais de um minuto.54
Quando o Aljube fechou, em 1965, Caxias passou a receber os presos de lá, e a partir de 1971 os interrogatórios contínuos da DGS fizeram-se no Reduto Sul, em salas com gravadores e sistemas de som.8 Na noite de 31 de dezembro de 1972, a polícia interrompeu a vigília da Capela do Rato; catorze dos detidos passaram pelo Governo Civil e chegaram aqui de madrugada, para ficarem cerca de quinze dias à guarda da DGS. Entre eles estavam o arquiteto Nuno Teotónio Pereira e uma só mulher, a bibliotecária Maria Benedita Galamba de Oliveira.3435 Foi aqui que a estudante Aurora Rodrigues, presa a 3 de maio de 1973, sofreu dezasseis dias seguidos de tortura do sono.33
No 25 de Abril, a DGS resistiu também em Caxias, e a libertação atrasou-se: a Junta de Salvação Nacional queria separar os presos por motivos ideológicos dos acusados de crimes comuns. «Ou todos ou ninguém», responderam os presos. Uma comissão de advogados defendeu que todos os atos eram políticos, e perto da meia-noite de 26 chegou da Junta a ordem de libertação total. Segundo o jornal «República», a saída começou às 00h30 de 27 e à uma da manhã já não havia presos políticos em Caxias.16 Entre as mulheres libertadas estavam as jornalistas Helena Neves e Elvira Nereu, que uma fotografia do jornal «A Capital» mostra à saída, e Manuela Gil, empregada de escritório, condenada a dois anos de prisão «por alegada participação no movimento operário português»: estava presa havia 21 meses, contou ao mesmo jornal.16 Lá fora, milhares de pessoas gritavam «o povo unido jamais será vencido».16 No próprio dia 27, o Diário de Lisboa publicou a lista dos libertados: no Reduto Norte estavam 77 pessoas, 68 homens e nove mulheres — entre elas Helena Neves, Elvira Nereu e Conceição Moita, a que lera a declaração na Capela do Rato — e na prisão-hospital mais três presos. A libertação total fora decidida ao fim de oito horas e meia de negociações entre os advogados e dois oficiais da Junta. Fernando Correia, jornalista do mesmo jornal e um dos libertados, contou a chegada dos paraquedistas e dos fuzileiros navais destacados para a «operação-Caxias».17
Hoje o forte é o Estabelecimento Prisional de Caxias.
Conceição Matos e Domingos Abrantes contam juntos, num testemunho recolhido pelo museu a 7 de outubro de 2015, a clandestinidade, as prisões e a tortura. As palavras-chave do museu incluem a prisão do Aljube, Caxias, os interrogatórios da PIDE e a fuga de Caxias.
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No dia em que passavam 60 anos, Domingos Abrantes, um dos oito dirigentes do PCP que fugiram do Forte de Caxias a 4 de dezembro de 1961, recorda a fuga. Os presos saíram no Chrysler blindado que servira Salazar, conduzido por António Tereso, rebentando o portão exterior do forte.
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Testemunho de Diana Andringa recolhido pelo Museu do Aljube a 19 de abril de 2017. Segundo as palavras-chave do museu, fala do movimento estudantil, do apoio aos presos políticos, da ligação ao MPLA e à luta de libertação, da prisão e dos interrogatórios em Caxias e do julgamento no Tribunal Plenário.
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Isabel do Carmo, num testemunho recolhido pelo Museu do Aljube a 24 de abril de 2019. As palavras-chave do museu incluem o movimento estudantil, a clandestinidade, a luta armada, a prisão, a tortura e o isolamento em Caxias, e a prisão depois do 25 de Abril.
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Testemunho da jornalista Helena Neves, recolhido pelo Museu do Aljube a 13 de março de 2019. Pelas palavras-chave do museu, passa pela família, pelos católicos, pelas coletividades de cultura e recreio, pelo Movimento Democrático de Mulheres, pela prisão, pelos interrogatórios e pela tortura.
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Aurora Rodrigues, num testemunho recolhido pelo Museu do Aljube a 12 de outubro de 2016. As palavras-chave do museu incluem o movimento estudantil, o assassinato de Ribeiro Santos, o MRPP, a prisão, os interrogatórios e a tortura em Caxias.
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Três mulheres do campo — Eulália Miranda, Hermínia Vicente e Maria Lourença Cabecinha — num testemunho conjunto recolhido pelo Museu do Aljube a 19 de outubro de 2016. Segundo as palavras-chave do museu, falam da luta pelas 8 horas de trabalho, da clandestinidade no PCP, dos filhos de clandestinos, da prisão e dos interrogatórios em Caxias.
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Helena Cabeçadas conta ao Museu do Aljube o movimento associativo dos liceus, a crise académica de 1962, que viveu aos 14 anos, e a prisão de 1965, quando foi levada ao Governo Civil e a Caxias. Expulsa de todas as escolas do país, partiu sozinha para o exílio na Bélgica aos 17 anos.
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Helena Pato conta, num testemunho recolhido pelo Museu do Aljube a 30 de setembro de 2015, a prisão pela PIDE, os interrogatórios, a tortura e o isolamento em Caxias. As palavras-chave do museu apontam também as mulheres, a solidariedade e o socorro aos presos políticos.
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Um visitante do Museu Nacional Resistência e Liberdade canta o «Hino de Caxias», canção de 1953–1954 com música do preso político Vasco Costa Marques e letra escrita em conjunto por presos de Caxias, entre eles Aurélio Santos e Rolando Verdial.
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Museu Nacional Resistência e Liberdade (Peniche), no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
Fernanda Gonçalves conta como soube da revolução em Aveiro, chegou no dia seguinte a Santa Apolónia num comboio cheio de amigos e seguiu para Caxias, onde milhares de pessoas esperavam a saída dos presos políticos. Lembra o corredor que a multidão mantinha aberto para as negociações com a PIDE, lá dentro.
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Câmara Municipal de Lisboa, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
Testemunho de José Mário Branco recolhido pelo Museu do Aljube a 16 de maio de 2019, seis meses antes de morrer. Pelas palavras-chave do museu, fala da prisão do Aljube, da PIDE e dos interrogatórios, dos estudantes, da guerra colonial, do exílio e do Maio de 1968.
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Programa da Antena 1, feito em parceria com o Clube dos Jornalistas, em que duas jornalistas contam o seu 25 de Abril — Maria Antónia Palla, que trabalhava então n'O Século, e Fernanda Mestrinho, do Diário de Lisboa, que esteve na libertação dos presos políticos de Caxias. No YouTube, o som corre sobre uma imagem fixa.
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RTP – Antena 1, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ouvir».
José Lamego, estudante de Direito, estava no anfiteatro do ISCEF a 12 de outubro de 1972 — quando o agente da DGS disparou sobre Ribeiro Santos, lutou com ele corpo a corpo e foi baleado numa perna. No testemunho que o Museu do Aljube publicou em 2024, conta também as três prisões que se seguiram, em Caxias, com 34 dias de tortura do sono ao todo, até sair em liberdade a 26 de abril de 1974.
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Desde quando houve aqui presos políticos do Estado Novo: o Reduto Sul passou para a polícia política em janeiro de 1935, mas a escultura de 2020 conta os presos a partir de 1936.
Quem estava no Reduto Norte: o Memória Comum diz que passou para a polícia política em maio de 1938, para as mulheres, mas as suas próprias fichas registam presos homens levados para lá em 1937 e 1939, e a fuga de 1961 partiu do seu fosso, com presos homens. Em abril de 1974, segundo a lista do Diário de Lisboa, o Reduto Norte tinha 68 homens e nove mulheres.
As datas da prisão de Cesina Bermudes em Caxias (de 14 de outubro de 1949 a 14 de janeiro de 1950) e a passagem de Stella Piteira Santos por aqui, em fevereiro de 1962, só se encontraram na Wikipédia.
Quem comandou a tomada de Caxias: os capitães José Brás e Mário Pinto, à frente de paraquedistas, segundo a cronologia da Associação 25 de Abril e a da Comissão Portuguesa de História Militar; o capitão-tenente Abrantes Serra e o capitão Mário Pinto, à frente de fuzileiros e paraquedistas, segundo a página «Presos políticos» da mesma Associação. O testemunho de Fernando Correia no Diário de Lisboa de 27 de abril de 1974 refere paraquedistas e fuzileiros navais, mas não nomeia os oficiais.
Quantos presos saíram em liberdade: 82 — 78 e, por fim, os quatro do hospital-prisão —, segundo o República citado pelo Esquerda.net; 85, segundo a Comissão Comemorativa 50 Anos; 80 pela lista do Diário de Lisboa de 27 de abril de 1974 (77 no Reduto Norte e três na prisão-hospital). Por isso o texto dá a lista do Diário de Lisboa e não um total.
Se o forte se pode visitar — é hoje um estabelecimento prisional em funcionamento — e onde está a placa de 2019, dentro ou fora do recinto.
17«A lista dos presos libertos em Caxias»; «Depoimento de um jornalista do Diário de Lisboa hoje libertado em Caxias» (Fernando Correia). Diário de Lisboa, n.º 18441, 27 de abril de 1974, pp. 3 e 20 (Casa Comum, Fundação Mário Soares e Maria Barroso), 1974 — consultado a 4 de outubro de 2026No Reduto Norte estavam detidas 77 pessoas, 68 homens e nove mulheres (entre elas Helena Neves, Maria Elvira Nereu e Conceição Moita), e na prisão-hospital mais três presos; a libertação total foi decidida ao fim de oito horas e meia de negociações entre advogados e dois oficiais da Junta; o jornalista Fernando Correia, libertado nesse dia, refere paraquedistas e fuzileiros navais destacados para a «operação-Caxias».
22Helena Neves (testemunho). Museu do Aljube Resistência e Liberdade — consultado a 2 de outubro de 2026
23Prisão de Caxias. RTP – Memórias da Revolução (textos de Aniceto Afonso, Carlos Matos Gomes e Maria Inácia Rezola) — consultado a 2 de outubro de 2026
36Maria da Conceição Vassalo e Silva da Cunha Lamas. Memória Comum – Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos — consultado a 4 de outubro de 2026Primeira prisão a 17 de dezembro de 1949; presa na prisão de Caxias em 1949, 1950–1951 e 1953.
Coordenadas: OpenStreetMap (Nominatim), consultado a 2 de outubro de 2026.