Carnide (Lisboa), segundo o decreto de classificação de 2015; a morada postal e o núcleo museológico são da Pontinha, concelho de Odivelas
Posto de Comando do MFA – Regimento de Engenharia n.º 1 (Quartel da Pontinha)
Num anexo deste quartel funcionou, de 24 a 26 de abril de 1974, o Posto de Comando do MFA. Daqui Otelo Saraiva de Carvalho dirigiu as operações, e para aqui foi trazido Marcelo Caetano depois de se render. Hoje é núcleo museológico.
Hoje: Núcleo Museológico do Posto de Comando do MFA, no Quartel da PontinhaHá uma marca no local
O Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas (MFA) funcionou num anexo deste quartel do Regimento de Engenharia n.º 1, que o capitão Luís Macedo, oficial da unidade, preparara para a missão. Nas noites de 22 e 23 de abril de 1974, o Movimento montou às escondidas cerca de 4 km de cabo telefónico aéreo entre a central telefónica do Exército e o regimento.1 A 23, Otelo Saraiva de Carvalho, Garcia dos Santos e Jaime Neves reuniram-se no quartel, e o posto ficou pronto.3 A partir das 21h00 de 24, as escutas da Escola Prática de Transmissões às redes da GNR, da Legião Portuguesa, da DGS e da PSP, e aos telefones de ministros e chefes militares, chegavam aqui por linha direta.1
Às 22h00 de 24 de abril, o posto estava reunido: Otelo, o capitão-tenente Vítor Crespo, o major Sanches Osório e os tenentes-coronéis Garcia dos Santos e Fisher Lopes Pires; mais tarde chegou de Tomar o major Hugo dos Santos. O capitão Macedo garantia a segurança, e o major José Maria Azevedo dava apoio.12910 As janelas foram tapadas com cobertores militares e a luz era discreta. Ao centro havia uma mesa de trabalho e, à volta, três mesas de apoio — uma com rádios, duas com telefones; num armário, pistolas e granadas. Para seguir o movimento das unidades, Otelo afixou cartas militares de Lisboa e arredores e o mapa das estradas do Automóvel Clube de Portugal.1
Daqui se comandou o dia 25. Às 4h26, com o aeroporto ocupado, o posto deu ordem ao Rádio Clube Português para ler o primeiro comunicado, e ao longo do dia o tenente-coronel Fisher Lopes Pires foi redigindo aqui outros, que a emissora difundia.2 Pelas 11h30, com os ministros refugiados no Quartel do Carmo e em Lanceiros 2, o posto mandou dividir as forças do Terreiro do Paço: uma coluna, com Jaime Neves, iria ao quartel da Legião Portuguesa, na Penha de França; outra, com Salgueiro Maia, ao Carmo, obter a rendição de Marcelo Caetano.2 À tarde, enquanto na rádio passava um comunicado do MFA lido por uma mulher, Clarisse Guerra, Otelo insistia daqui com Maia para que forçasse a rendição, e mandou-lhe recado pelo capitão Rosado da Luz: «Com autometralhadoras rebenta fechaduras do portão para verem que é a sério».1 Às 17h00, mandatou o general António de Spínola para ir receber a rendição de Caetano.5
Ao princípio da noite, o quartel encheu-se de presos. Os ministros do Exército, da Defesa e da Marinha, apanhados em Monsanto pela Escola Prática de Infantaria, foram trazidos para aqui. Spínola chegou com os membros do Governo presos no Carmo e saudou os oficiais: «Senhores oficiais, devo começar por informá-los que acabo de assumir o poder no Quartel do Carmo. Agora vamos ao trabalho».2 A chaimite «Bula» trouxe Marcelo Caetano e dois ministros, que ficaram aqui detidos até ao dia seguinte.5 A pedido de Otelo, Spínola convenceu o ministro do Interior preso, César Moreira Baptista, a telefonar ao diretor da DGS, Silva Pais, que se mostrou disposto a render-se se as Forças Armadas protegessem os agentes.2
Nessa noite reuniu-se aqui a Junta de Salvação Nacional, cujos membros foram chamados por telefone; o primeiro a chegar foi o general Costa Gomes. Pelas 23h00, na reunião com os oficiais que tinham redigido o Programa do MFA, Spínola quis revê-lo, e foi o capitão-tenente Vítor Crespo quem desfez o impasse: «os blindados e tropas ainda estão na rua, se for preciso continua-se com o golpe». A Junta designou Spínola Presidente da República, quando o combinado com o MFA era Costa Gomes. À 01h00 de 26 saiu daqui para os estúdios da RTP, e ao regressar retomou a discussão do Programa, que só acabou às 07h00: aceitaram-se as exigências de Spínola e Costa Gomes, e retirou-se do texto o «claro reconhecimento dos povos à autodeterminação e independência».2
O Núcleo Museológico do Posto de Comando do MFA abriu a 24 de abril de 2001, criado pela Câmara Municipal de Odivelas com o Regimento de Engenharia n.º 1. Depois de um ano fechado para obras, reabriu a 25 de abril de 2025.6 O edifício foi classificado como monumento nacional pelo Decreto n.º 21/2015, de 23 de outubro, que lembra que ali estiveram detidos Marcelo Caetano, o diretor da PIDE/DGS, Silva Pais, e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Patrício.8
Posto de Comando do MFA – Regimento de Engenharia n.º 1 (Quartel da Pontinha)Quartel da Pontinha, Av. do Regimento de Engenharia n.º 1, 1675-103 Pontinha
A hora a que Caetano chegou: a Associação 25 de Abril regista Spínola aqui, com os membros do Governo presos, às 20h30; a cronologia de Jofre Alves põe a chaimite «Bula» aqui às 21h00; a Comissão Comemorativa diz que, levantado o cerco às 19h30, a coluna levou hora e meia a fazer cerca de 11 km.
Se já foi posta no quartel a placa dos «Lugares de Abril» da Câmara de Lisboa e da Associação 25 de Abril: em março de 2024 esperava pelo fim das obras.
9Osório Sanches (n. 1941). Centro de Documentação 25 de Abril (Universidade de Coimbra) — consultado a 4 de outubro de 2026José Sanches Osório foi oficial do Exército, membro do MFA e da primeira Comissão Coordenadora, porta-voz da Junta de Salvação Nacional e ministro da Comunicação Social do II Governo Provisório.
10Conferência de imprensa de Sanches Osório. RTP Arquivos — consultado a 4 de outubro de 2026Notícia de 8 de agosto de 1974: conferência de imprensa do «major José Eduardo Fernandes de Sanches Osório», ministro da Comunicação Social.
Coordenadas: OpenStreetMap (Nominatim), consultado a 2 de outubro de 2026.