A redação do jornal «República», segundo a legenda do arquivo Anefo, a 11 de fevereiro de 1975 — três meses antes do «caso República». Fotografia de Rob Mieremet.Rob Mieremet / Anefo, CC0 1.0
Misericórdia
Sede do jornal República (Rua da Misericórdia)
No n.º 116 ficava o República, o diário da oposição democrática. Esteve na conspiração do 25 de Abril, saiu nesse dia sem passar pela censura e, em maio de 1975, deu nome a uma das grandes crises da revolução, o «caso República».
Durante o Estado Novo, o República deu voz à oposição democrática.4 Ficava no n.º 116 da Rua da Misericórdia, quase em frente da censura, que desde 22 de setembro de 1969 trabalhava no n.º 125.6 No jornal escreveram também mulheres da oposição: as memórias da sufragista Maria Veleda saíram nas suas páginas em 1950,7 e Helena Neves, proibida de ensinar depois de ter sido presa em 1969, coordenou nele o suplemento «Presença da Mulher».8Maria Teresa Horta foi outra das colaboradoras.9
Em meados de abril de 1974, o jornalista Álvaro Guerra, elo entre oficiais do MFA e a oposição civil, conseguiu a colaboração do núcleo do jornal: o diretor, Raul Rego, e os jornalistas Álvaro Belo Marques, Carlos Albino, Fernando Assis Pacheco, José Jorge Letria e Vítor Direito.6 Foi a Carlos Albino que Álvaro Guerra pediu, a 23 de abril, uma canção para o programa «Limite», da Rádio Renascença; da conversa saiu a «Grândola».2 Na edição das 14 horas do dia 24, o República publicou uma nota curta, intitulada «Limite», a dizer que o programa se tornara «um tempo radiofónico de audição obrigatória».63
A 25 de abril, Raul Rego recusou-se a mandar as provas ao Exame Prévio, e o jornal saiu com a manchete «As Forças Armadas tomaram o poder» e um rodapé na primeira página: «Este jornal não foi visado por qualquer Comissão de Censura».6 Pelas 11h00, o comandante Martins Guerreiro entregou aqui o Programa do MFA aprovado pela comissão de redação. Não seria a versão oficial: o texto foi alterado nessa noite, no posto de comando da Pontinha, numa reunião com os generais António de Spínola e Costa Gomes.1 No dia seguinte, a população destruiu, nesta mesma rua, as instalações do jornal «Época» e as da censura.6
Um ano depois, o jornal esteve no centro de uma das crises da revolução. A 19 de maio de 1975, a comissão coordenadora dos trabalhadores, composta sobretudo por gráficos, demitiu o diretor, Raul Rego, o diretor-adjunto, Vítor Direito, e o chefe de redação, João Gomes, acusados de serem porta-vozes do PS. Rego e os jornalistas que o apoiaram ficaram impedidos de sair; à porta houve confrontos, e ouvia-se «O República é do povo, não é de Moscovo». De madrugada, o ministro da Comunicação Social, Correia Jesuíno, mandou evacuar os tipógrafos, libertar os jornalistas e selar o jornal. A 22 de maio, numa manifestação do PS, Mário Soares disse ao megafone: «o 25 de Abril foi feito para acabar com uma ditadura e não para nos vir impor outra».4
O República voltou a sair a 10 de julho, dirigido por um militar, o coronel Pereira de Carvalho. Nesse dia demitiram-se os ministros do PS, e a 16 os do PPD; os jornalistas afastados fundaram o jornal A Luta a 25 de agosto.4 O República deixou de se publicar em janeiro de 1976.5
O que é hoje o prédio do n.º 116, e se há nele alguma placa.
Desde quando o República esteve na Rua da Misericórdia — e, por isso, se as colaborações de Maria Veleda (1950) e de Helena Neves foram já feitas nesta casa.