Percurso · República · a pé
O voto de Carolina
As sufragistas da I República, da Baixa a Arroios — médicas, professoras e jornalistas que pediram o voto, e uma que votou
- Distância
- 4,1 km
- Duração
- 1 h 50 min
- Paragens
- 6
- Dificuldade:
- Média
O percurso, as fotografias e o mapa ficam no telemóvel, para abrir em qualquer lado.
Paragens
Mapa do percurso «O voto de Carolina», com 6 paragens numeradas. A lista das paragens está a seguir ao mapa.
As paragens
Paragem 1: : O consultório de uma médicaHoje: Um prédio com uma loja no rés-do-chão
Rua Nova do Almada, 84, 1100-225 Lisboa

A Rua Nova do Almada, no Chiado, em março de 2020. Daniel, CC BY 2.0 Carolina Beatriz Ângelo veio da Guarda para estudar em Lisboa, formou-se em Medicina em 1902 e dedicou-se à ginecologia. Um anúncio de 1909 situa o seu consultório aqui, no n.º 84 da Rua Nova do Almada.3
A Baixa era também o território de outra médica feminista: Adelaide Cabete teve consultório na Rua da Prata e na Rua Áurea antes de se mudar para os Restauradores, onde vamos a seguir.4
Um documentário curto da Assembleia da República («Especial Eleições», 2019) sobre a médica, republicana e sufragista que foi a primeira mulher a votar em Portugal, aproveitando o facto de a lei não dizer que só os homens podiam votar. Entre quem comenta a sua história estão a encenadora Paula Pais e Isabel Vaz, presidente da comissão executiva da Luz Saúde.
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Assembleia da República, no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
Até à paragem 2710 m · 10 min a pé
Paragem 2: : O Conselho das MulheresHoje: Praça dos Restauradores, 13
Praça dos Restauradores, 13, 2.º andar, Lisboa

A Praça dos Restauradores em 1951, com o Palácio Foz — então sede do SNI — à esquerda e o obelisco ao centro. Autor desconhecido (ETH-Bibliothek Zürich, Bildarchiv), CC BY-SA 4.0 No primeiro andar do n.º 13 desta praça, no consultório de Adelaide Cabete, nasceu em 1914 o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas — para a historiadora Rosa de Lurdes Correia, «a mais importante e duradoura associação feminista portuguesa da primeira metade do século XX». Teve aqui a sede durante 32 anos.5
Adelaide Cabete dava consultas gratuitas a mulheres pobres.4 O Conselho atravessou a República e a ditadura: foi presidido por Maria Lamas a partir de 1945 e fechado pela polícia em 1947.5
Até à paragem 3870 m · 15 min a pé
Paragem 3: : A primeira cirurgiãHoje: Hospital de São José
Rua José António Serrano, 1150-199 Lisboa

O portão barroco do Hospital de São José, em novembro de 2025. Vitor Oliveira, CC BY-SA 4.0 Carolina Beatriz Ângelo foi pioneira nas intervenções cirúrgicas e, segundo a Toponímia de Lisboa, a primeira médica portuguesa a operar neste hospital.3 Era uma geração pequena: em 1906, ela, Adelaide Cabete, Domitila de Carvalho, Emília Patacho e Maria do Carmo Lopes aderiram juntas a um movimento feminino pela paz e pelo desarmamento.3
Até à paragem 4740 m · 10 min a pé
Paragem 4: : A Liga Republicana das MulheresRua dos Castelinhos, 6, 2.º, Lisboa
Rua dos Castelinhos, 6, 2.º, Lisboa

O estandarte da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, de cerca de 1909–1911. Autor desconhecido, Domínio público A Liga Republicana das Mulheres Portuguesas foi lançada em 1908 por Ana de Castro Osório e António José de Almeida, e constituiu-se em fevereiro de 1909 — segundo a Toponímia de Lisboa, no segundo andar do n.º 6 desta rua. Queria «orientar, educar e instruir, nos princípios democráticos, a mulher portuguesa» e mudar as leis que lhe diziam respeito.67
Depois do 5 de Outubro, a Liga entregou ao Governo Provisório uma longa lista de reivindicações feministas; entre elas estava o voto, pedido «por agora» só para as comerciantes, industriais, funcionárias, diplomadas, escritoras e administradoras de fortuna.11 Dividiu-se em 1911 sobre que voto pedir: Ana de Castro Osório queria-o para as mulheres instruídas; Maria Veleda, para todas.1
Até à paragem 51,3 km · 20 min a pé
Paragem 5: : As aulas da noiteCalçada de Arroios, Lisboa (número por identificar)
Calçada de Arroios, Lisboa (número por identificar)
Em 1907, o Grupo Português de Estudos Feministas — médicas, escritoras e sobretudo professoras — dava cursos noturnos a mulheres que não sabiam ler no Centro Escolar Republicano Dr. Afonso Costa, aqui na Calçada de Arroios.8 Ensinar a ler era também abrir a porta do voto: a lei de 1911 só o daria a quem soubesse ler e escrever, ou fosse chefe de família.1
Até à paragem 6410 m · 6 min a pé
Paragem 6: : 28 de maio de 1911 — «Sou eu!»Rua de Dona Estefânia, 62, Lisboa (sede atual do clube: Rua Alexandre Braga, 24-A, 1150-004 Lisboa)
Rua de Dona Estefânia, 62, Lisboa (sede atual do clube: Rua Alexandre Braga, 24-A, 1150-004 Lisboa)

Carolina Beatriz Ângelo, «a primeira eleitora portuguesa», com Ana de Castro Osório no dia da eleição de 28 de maio de 1911. Fotografia de Joshua Benoliel publicada na «Ilustração Portuguesa». Joshua Benoliel, Domínio público Recusada pela comissão de recenseamento, Carolina recorreu ao tribunal, e o juiz João Baptista de Castro — pai de Ana de Castro Osório — mandou inscrevê-la: a lei, ao dizer «portugueses», abrangia homens e mulheres. Ficou eleitora com o n.º 2513.2
No dia das eleições para a Assembleia Constituinte, a assembleia de voto de São Jorge de Arroios funcionava aqui, no Clube Estefânia, então frequentado só por homens.10 Um eleitor protestou; Carolina lembrou que a lei só impedia de votar os «loucos ou embriagados». Na segunda chamada, ao ouvir o seu nome, avançou — «Sou eu!» — e entregou a lista, sob palmas.9 A «Ilustração Portuguesa» chamou-lhe «a única eleitora portuguesa».2 Morreu quatro meses depois, com 33 anos.12
O que se vê hoje
Uma placa com Carolina Beatriz Ângelo à entrada da sede atual do clube, na vizinha Rua Alexandre Braga, a poucos metros do n.º 62 da Rua de Dona Estefânia.10
- 14 mar. 1911Primeira lei eleitoral da República não exclui as mulheres
- 28 abr. 1911Sentença manda recensear Carolina Beatriz Ângelo
- 28 maio 1911Carolina Beatriz Ângelo, a primeira mulher a votar em Portugal
- 3 out. 1911Morte de Carolina Beatriz Ângelo
- 3 jul. 1913Código Eleitoral reserva o voto aos homens
Reportagem da televisão da Freguesia de Arroios sobre uma homenagem a Carolina Beatriz Ângelo, filmada à entrada da sede do Clube Estefânia, junto à placa com o seu nome e o seu retrato. Entre quem fala estão a bisneta, Maria João Fagundes, e a presidente da Assembleia de Freguesia de Arroios, Anabela Valente.
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Freguesia de Arroios (Arroios TV), no YouTube. O leitor só se liga a esse sítio quando carregar em «Ver».
História
A República chegou a 5 de outubro de 1910 e o voto das mulheres não chegou com ela. A primeira lei eleitoral, de março de 1911, dava o voto aos cidadãos que soubessem ler e escrever ou fossem chefes de família — sem dizer de que sexo.1 Carolina Beatriz Ângelo, médica, viúva e com uma filha a cargo, leu bem a lei, foi a tribunal e votou a 28 de maio de 1911: a primeira mulher a votar em Portugal. Em 1913, a lei passou a dizer «do sexo masculino».2
Este percurso segue as sufragistas da I República — as que se organizaram em ligas, conselhos e cursos noturnos para mulheres — do consultório de Carolina, na Baixa, à sala onde ela disse «Sou eu!».
Antes de ir
- Partida
- Rua Nova do Almada, na Baixa — Metro Baixa-Chiado (linhas azul e verde)
- Chegada
- Rua de Dona Estefânia, em Arroios — Metro Saldanha (linhas amarela e vermelha) ou Arroios (linha verde)
- Acessibilidade do caminho
- A Baixa e os Restauradores são planos. Dos Restauradores ao Hospital de São José sobe-se a colina de Santana, íngreme e em calçada. Daí até Arroios o caminho é largo, com subidas suaves.
Datas
1906
1907
fev. 1909
14 mar. 1911
Mais 8 datas
28 abr. 1911
12 maio 1911
28 maio 1911
3 out. 1911
3 jul. 1913
24 abr. 1914
jul. 1945
28 jun. 1947
Notas sobre as fontes3
- Que os números de porta de hoje (Rua Nova do Almada, 84; Praça dos Restauradores, 13; Rua dos Castelinhos, 6; Rua de Dona Estefânia, 62) correspondem aos edifícios da época.
- O número da porta do Centro Escolar Republicano Dr. Afonso Costa na Calçada de Arroios.
- O que a Liga pediu ao Governo Provisório em outubro de 1910, além do voto: a Wikipédia diz que pedia também a revisão do Código Civil e o divórcio; o historiador João Esteves e o jornal «A Capital» só falam de uma «larga representação de reivindicações feministas», entre as quais o voto.
Sabe mais, ou tem um documento? Conte-nos.
Fontes12
- 1O sufrágio feminino no Parlamento na 1.ª República (ComunicAR n.º 71, março de 2021). Assembleia da República — consultado a 2 de outubro de 2026
- 2Carolina Beatriz Ângelo. Assembleia da República — consultado a 2 de outubro de 2026
- 3A rua lisboeta da primeira mulher que votou em Portugal. Toponímia de Lisboa (Câmara Municipal de Lisboa) — consultado a 2 de outubro de 2026
- 4A Rua da médica Adelaide Cabete que também foi professora de Higiene. Toponímia de Lisboa (Câmara Municipal de Lisboa) — consultado a 2 de outubro de 2026
- 5Ser mulher em Lisboa: a associação que agitou o regime no século XX (Ana Sofia Paiva, 8/3/2019). FCSH+Lisboa – NOVA FCSH — consultado a 2 de outubro de 2026
- 6Liga Republicana das Mulheres Portuguesas. Almanaque Republicano (blogue) — consultado a 2 de outubro de 2026
- 7A feminista e republicana Ana de Castro Osório. Toponímia de Lisboa (Câmara Municipal de Lisboa) — consultado a 2 de outubro de 2026
- 8Maria Veleda na urbanização das mulheres. Toponímia de Lisboa (Câmara Municipal de Lisboa) — consultado a 2 de outubro de 2026
- 9Carolina: por entre os itinerários da memória e da ciência (Gaudium Sciendi, n.º 2, julho de 2012). Isabel Lousada / Universidade Católica Portuguesa — consultado a 2 de outubro de 2026
- 10O clube de Arroios onde uma mulher votou pela primeira vez virou espaço de resistência (8/3/2024). Mensagem de Lisboa — consultado a 2 de outubro de 2026
- 11João Esteves, Da esperança à deceção: a ilusão do sufrágio feminino na revolução republicana portuguesa de 1910 (Historia Constitucional, n.º 15). Historia Constitucional (revista eletrónica), 2014 — consultado a 3 de outubro de 2026
- 12Carolina Beatriz Ângelo: um legado com 110 anos. FCSH+Lisboa (NOVA FCSH) — consultado a 2 de outubro de 2026
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