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Carolina Beatriz Ângelo, «a primeira eleitora portuguesa», com Ana de Castro Osório no dia da eleição de 28 de maio de 1911. Fotografia de Joshua Benoliel publicada na «Ilustração Portuguesa». Joshua Benoliel, Domínio público

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Fotografia a preto e branco de duas mulheres de chapéu e vestidos escuros, lado a lado, na rua, diante de um muro.
Carolina Beatriz Ângelo, «a primeira eleitora portuguesa», com Ana de Castro Osório no dia da eleição de 28 de maio de 1911. Fotografia de Joshua Benoliel publicada na «Ilustração Portuguesa». Joshua Benoliel, Domínio público

Arroios

Clube Estefânia — assembleia de voto de São Jorge de Arroios (1911)

Aqui funcionava, a 28 de maio de 1911, a assembleia de voto de São Jorge de Arroios. Foi nela que a médica Carolina Beatriz Ângelo, inscrita por ordem de um juiz, se tornou a primeira mulher a votar em Portugal.

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História

O Clube Estefânia nasceu em 1890 no n.º 62 da rua que lhe dá o nome e, nesses primeiros tempos, só os homens o frequentavam.4 Na eleição para a Assembleia Nacional Constituinte, a 28 de maio de 1911, funcionou aqui a assembleia de voto da freguesia de São Jorge de Arroios, do círculo n.º 34, Lisboa Oriental: a ata chama-lhe «Assembleia Primária de S. Jorge de Arroios – Clube Estefânia, n.º 62, 2.º Bairro».1

A lei eleitoral de 14 de março de 1911 dava o voto aos portugueses maiores de 21 anos que soubessem ler e escrever ou fossem chefes de família, sem dizer que tinham de ser homens. Carolina Beatriz Ângelo, médica, viúva e com uma filha a seu cargo, reunia as duas condições.3 A comissão de recenseamento e o Ministério do Interior recusaram-lhe a inscrição; ela recorreu ao tribunal, e o juiz João Baptista de Castro, pai de Ana de Castro Osório, deu-lhe razão. Ficou inscrita na freguesia de São Jorge de Arroios com o número 2513.2

Segundo o relato do jornal A Capital desse dia, a sala estava cheia. No fim da primeira chamada, o presidente da mesa, Constâncio de Oliveira, perguntou aos vogais se devia aceitar a lista de Carolina, que ali estava com muitas outras senhoras. Um eleitor protestou, muitos outros reagiram contra ele, e Carolina lembrou que o artigo 64.º da lei eleitoral só impedia de votar os que estivessem «loucos ou embriagados». À segunda chamada, o secretário leu o seu nome. «Sou eu!», respondeu, e entregou a lista ao presidente, enquanto parte da assistência a aplaudia. Agradeceu e disse que, se um dia fosse eleita, saberia cumprir o mandato.1 Na ata, o presidente justificou o voto: o nome dela estava nos cadernos de recenseamento, e ela, «diplomada como é, com um curso superior», tinha preparação para «arrostar com essa responsabilidade».2 Ia de luto, com dois cravos brancos na lapela; o terceiro, símbolo da Associação de Propaganda Feminista que as duas tinham fundado, levava-o Ana de Castro Osório.1

A «Ilustração Portuguesa» de 5 de junho chamou-lhe «a única eleitora portuguesa» e publicou uma fotografia dela com Ana de Castro Osório junto ao local da eleição.23 Foi Joshua Benoliel quem fixou o momento para a revista.5 Em 1911 eram raros os países europeus onde as mulheres votavam — a Finlândia, que a Assembleia da República dá como o único; e a Noruega, desde 1907, só para as que tinham certos rendimentos9 —, e a notícia passou fronteiras: vieram jornalistas estrangeiros a Portugal entrevistá-la.3 A porta não ficou aberta. Carolina morreu em outubro desse ano, com 33 anos, e o código eleitoral de 1913 passou a exigir que os eleitores fossem «do sexo masculino».2

O clube mudou-se mais tarde para a vizinha Rua Alexandre Braga, a poucos metros, e à entrada da sede atual há uma placa com Carolina Beatriz Ângelo. Lá funcionam a Universidade Intergeracional do Clube Estefânia (UNIESTE) e a companhia Escola de Mulheres – Oficina de Teatro, criada por sete mulheres, entre elas Fernanda Lapa, para «dar a merecida relevância ao papel das mulheres nas artes».4

Notas sobre as fontes5
  • Se o n.º 62 de hoje da Rua de Dona Estefânia é o prédio de 1911 (a numeração e o edifício podem ter mudado), e o que lá está agora.
  • O texto da placa à entrada da sede atual do clube.
  • Em quem votou: num blogue (Em Defesa do Benfica, 2014) lê-se que votou em Afonso Costa, Bernardino Machado e Magalhães Lima, candidatos do Partido Republicano; falta confirmá-lo na imprensa de 1911.
  • A frase «Se a lei não nos abre a porta, também não nos põe na rua», que a Mensagem de Lisboa atribui a Carolina, não traz fonte da época.
  • A Assembleia da República escreve que em 1911 a Finlândia era «o único país europeu que reconhecia o direito de voto às mulheres»; mas a Noruega dava-o desde 1907, nas eleições nacionais, às mulheres com certos rendimentos (Storting). Talvez a Assembleia queira dizer o voto sem restrições; o texto diz as duas coisas.

Sabe mais, ou tem um documento? Conte-nos.

Fontes9
  1. 1Carolina: por entre os itinerários da memória e da ciência (Gaudium Sciendi, n.º 2, julho de 2012). Isabel Lousada / Universidade Católica Portuguesa — consultado a 2 de outubro de 2026
  2. 2Carolina Beatriz Ângelo. Assembleia da República — consultado a 2 de outubro de 2026
  3. 3O sufrágio feminino no Parlamento na 1.ª República (ComunicAR n.º 71, março de 2021). Assembleia da República — consultado a 2 de outubro de 2026
  4. 4O clube de Arroios onde uma mulher votou pela primeira vez virou espaço de resistência (8/3/2024). Mensagem de Lisboa — consultado a 2 de outubro de 2026
  5. 5A rua lisboeta da primeira mulher que votou em Portugal. Toponímia de Lisboa (Câmara Municipal de Lisboa) — consultado a 2 de outubro de 2026
  6. 6Como chegar ao Clube Estefânia? (folheto com a morada do clube). pongpesca (WordPress) — consultado a 2 de outubro de 2026
  7. 7Ângelo, Carolina Beatriz (1878-1911) — Dicionário de Médicos Portugueses. Unidade de História da Medicina, Faculdade de Ciências Médicas da UNL (projeto de estudantes) — consultado a 2 de outubro de 2026
  8. 8O Benfiquismo e D. Carolina Beatriz Ângelo (Alberto Miguéns, 8/3/2014). Em Defesa do Benfica (blogue) — consultado a 2 de outubro de 2026
  9. 9Anna Rogstad – the first woman in the Storting. Stortinget (Parlamento da Noruega) — consultado a 3 de outubro de 2026Em 1907 o Storting deu às mulheres com certos rendimentos o direito de votar nas eleições nacionais (sufrágio censitário); o sufrágio universal das mulheres veio em 1913.

Coordenadas: OpenStreetMap (Nominatim), consultado a 2 de outubro de 2026.

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