Sede dos Serviços de Censura / Exame Prévio (1969-1974)
Última sede da censura à imprensa, entre 22/9/1969 e o 25 de abril de 1974, em frente à redação do jornal República. Os jornais entregavam aqui as provas para o «lápis azul»; a 26 de abril o edifício foi assaltado pela população.
Hoje: Um edifício da Rua da MisericórdiaLocalização aproximada
A censura prévia à imprensa acompanhou toda a ditadura e mudou várias vezes de casa, sempre no eixo Carmo–Bairro Alto–Restauradores, perto das redações. O investigador Joaquim Cardoso Gomes identificou as sedes sucessivas: Quartel da GNR do Carmo (de 22 de junho de 1926 a 1934); Rua Nova da Trindade, 62, 1.º (1934-1943, edifício desaparecido); Largo Trindade Coelho, 9, 1.º (1943-1947/48); Calçada da Glória, 9, 2.º, no edifício do Palácio Foz (1947/48-1961); Rua de São Pedro de Alcântara, 45, 2.º (11/6/1961-1968, com entrega de provas pela Rua do Diário de Notícias, 150; a revista «JJ – Jornalismo & Jornalistas», onde o estudo saiu, ilustra-a com o Palácio Ludovice, onde também funcionou o SPN); Rua de São Pedro de Alcântara, 81, r/c (11/12/1968-1969); e, por fim, Rua da Misericórdia, 125, 1.º, a partir de 22 de setembro de 1969.1
Os jornais mandavam as provas de página por estafeta e recebiam-nas de volta carimbadas «Visado pela Censura»3 — o «lápis azul», como ficou conhecida. A estrutura era pequena — cerca de 70 a 90 censores e 30 auxiliares, um décimo da PIDE/DGS, segundo Cardoso Gomes —, mas condicionava toda a informação. Em 1972 os serviços passaram a chamar-se Exame Prévio, sem mudança de prática.1
Muitos textos de mulheres caíram sob este crivo: Diana Andringa, quando trabalhava na Vida Mundial, viu cortado um artigo sobre a guerra colonial em Angola;5 «Minha Senhora de Mim», de Maria Teresa Horta, saído em abril de 1971, foi apreendido pela polícia política na editora a 3 de junho e depois nas livrarias;689 e as «Novas Cartas Portuguesas» (1972) foram retiradas de circulação pouco depois de publicadas e levaram as autoras a tribunal. O silêncio imposto aos jornais sobre esse processo foi tal que, a certa altura, nem a data e hora das audiências podiam ser noticiadas.4
Em frente, do outro lado da rua, ficava a redação do República, o diário mais identificado com a oposição. A 25 de abril de 1974, o jornal saiu com a frase «Este jornal não foi visado por qualquer Comissão de Censura», e os censores abandonaram as instalações à multidão. Na manhã de 26 houve um assalto popular à sede; pouco antes, o último responsável, Mário Bento, aconselhara um coronel a ficar «quieto e calado».1
Sede dos Serviços de Censura / Exame Prévio (1969-1974)Rua da Misericórdia, 125, 1.º, Lisboa (entrega de provas pelas traseiras: Rua das Gáveas, 90, 3.º)
Coordenadas aproximadas (troço da rua); o n.º 125 não está geocodificado no OpenStreetMap.
Sequência de 25-26 de abril: um texto da revista «JJ – Jornalismo & Jornalistas», no mesmo número do estudo de Cardoso Gomes, diz que os censores fugiram da Rua da Misericórdia uma ou duas horas depois de o República sair, a 25; Cardoso Gomes fala de assalto popular na manhã de 26. Ambas as versões podem ser compatíveis.
O uso atual do edifício e se tem placa evocativa: não verificados.
8Minha Senhora de Mim, Maria Teresa Horta (1971), Lisboa, Dom Quixote. Arquipélagos (arquivo de imagens em linha) — consultado a 4 de outubro de 2026O livro saiu em abril de 1971 na Dom Quixote; a 3 de junho a editora foi alvo de um auto de busca e apreensão da PIDE/DGS, estendido a todas as livrarias do país.
9Maria Teresa Horta: a censura de «Minha Senhora de Mim» (1971). Esquerda.net — consultado a 4 de outubro de 2026Transcreve, do processo de Maria Teresa Horta na Torre do Tombo, o auto de apreensão do livro numa livraria de Setúbal, a 14 de junho de 1971, lavrado por um agente da DGS.
Coordenadas: OpenStreetMap (Nominatim), consultado a 2 de outubro de 2026.