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A Rua António Maria Cardoso, com o então Teatro da República (hoje São Luiz), entre cerca de 1911 e 1915. Fotografia de Charles Chusseau-Flaviens. Charles Chusseau-Flaviens, Domínio público

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Fotografia a preto e branco de uma rua empedrada e quase vazia, entre prédios de varandas de ferro e a fachada alta de um teatro; ao fundo, à direita, uma árvore despida.
A Rua António Maria Cardoso, com o então Teatro da República (hoje São Luiz), entre cerca de 1911 e 1915. Fotografia de Charles Chusseau-Flaviens. Charles Chusseau-Flaviens, Domínio público

Misericórdia

Sede da PVDE / PIDE / DGS

No Chiado, a sede da polícia política: os arquivos, os informadores e, no terceiro piso, os interrogatórios e a tortura. No 25 de Abril, os agentes dispararam daqui sobre a multidão e mataram quatro pessoas.

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História

O n.º 22 da Rua António Maria Cardoso, no Chiado, era um edifício da Casa de Bragança. Foi aqui a sede da polícia política — PVDE, depois PIDE, por fim DGS, nome que o Governo de Marcelo Caetano lhe deu pelo Decreto-Lei n.º 49 401, de 24 de novembro de 1969:30 os serviços administrativos, os arquivos e ficheiros, os Serviços de Informação, que tratavam com os informadores, e os Serviços de Investigação, que interrogavam os presos.1 Segundo o projeto Memória Comum, a sede só funcionou em pleno a partir de 1938; até aí, muitos presos ficavam incomunicáveis em esquadras da PSP.3

Os interrogatórios faziam-se no terceiro piso. O Memória Comum descreve os métodos: espancamentos, a tortura do sono e a da «estátua» — o preso de pé, dias a fio —, aplicadas por brigadas de agentes que se revezavam de quatro em quatro horas; choques elétricos, ameaças à família, a mentira de que os camaradas já tinham falado. Contra as mulheres juntavam-se o desnudamento, os toques e as ofensas de carácter sexual.56

A operária Conceição Matos foi trazida para aqui a 21 de abril de 1965: espancada durante dias, despida, obrigada a sujar-se na sala de interrogatório e a limpar o chão com a própria roupa. «Quem vê aquele processo sabe que eu nunca falei à polícia», disse anos depois.8 Entre os que a torturaram, nomeou o inspetor Tinoco e a agente Madalena, contra quem depôs depois do 25 de Abril.33 Em 2005, à porta do edifício, Maria José Morgado — presa em outubro de 1973 — recordou as bofetadas e as humilhações no andar dos interrogatórios.9

Também se morreu aqui. O operário Raul Alves caiu do terceiro andar em 1958, à vista de várias testemunhas — entre elas a mulher do embaixador do Brasil, cuja residência dava para as traseiras.7 Em 1964, o próprio ministro do Interior achou melhor levar os interrogatórios para o Reduto Sul de Caxias, também por causa da má impressão que deixava o vaivém dos presos pelas ruas do centro.1

No 25 de abril de 1974, a ocupação da sede não constava do plano do Movimento das Forças Armadas, e a multidão foi-se juntando à porta ao longo do dia, a exigir a rendição da polícia. Ao início da noite, já depois de Marcelo Caetano se ter rendido no Carmo, agentes da DGS dispararam das janelas: morreram Fernando Carvalho Giesteira, de 18 anos, José James Harteley Barneto, de 38, João Guilherme Rego Arruda, de 20, e Fernando Luís Barreiros dos Reis, de 23. Houve dezenas de feridos. Quem disparou nunca foi apurado.252

Cercada por cavalaria e, de madrugada, por fuzileiros, a DGS rendeu-se na manhã de 26 de abril. O diretor, Silva Pais, declarou a adesão ao Movimento — e tirou ele próprio da parede um dos retratos dos dirigentes do regime.20

O prédio foi vendido e transformado num condomínio de luxo, cuja publicidade omitia o que ali se passara.10 Foi contra esse apagamento que nasceu, em 2005, o movimento Não Apaguem a Memória.

Notas sobre as fontes9
  • A hora dos disparos de 25 de abril: «por volta das 20h15» (Associação 25 de Abril), «perto das 20h30» (Museu do Aljube), 21h00 (cronologia da Comissão Portuguesa de História Militar); a placa de 1980 diz «na tarde». A rendição de 26 de abril: cerca das 9h00 ou das 9h30.
  • Coordenadas: o n.º 22 não está geocodificado no OpenStreetMap; usou-se o ponto do troço da rua devolvido pelo Nominatim.
  • Nome comercial atual do condomínio: a Esquerda.net (2009) refere o «site do Paço do Duque»; não se confirmou se a designação se mantém em 2026.
  • A cronologia da CPHM regista ainda que um elemento da DGS capturado na rua foi abatido a tiro quando tentava fugir; não se encontrou confirmação noutra fonte.
  • António Lopes Almeida (1949): a Comissão 50 Anos situa a morte numa sala do 3.º piso da sede; o Memória Comum diz que morreu na Cadeia do Aljube, a 21/1/1949.
  • Disparos anteriores: Jofre Alves (CD25A) refere rajadas às 13h30 com cinco feridos e um morto às 16h15 — não confirmado noutras fontes.
  • Número de porta: 22 (Associação 25 de Abril, Time Out) ou 20 (Observador).
  • O texto exato e a localização atual das placas de 1980 e de 2010 — se continuam no mesmo sítio — e qual delas a de 2024 veio substituir: «a que existia até então, mas que não continha dados correctos», segundo o Olhares de Lisboa.
  • As cinco «Mulheres do Couço», presas em 1962, terão sido interrogadas e torturadas nesta sede — só a Wikipédia o diz. O testemunho de uma delas, Maria Custódia Chibante (Esquerda.net, «Mulheres de Abril»), não o confirma: diz que foi presa a 27 de maio de 1962 (a Wikipédia dá 27 de abril), que o primeiro interrogatório foi em Caxias e que, das duas vezes que a levaram à Rua António Maria Cardoso, só houve ameaças; não diz onde foram os interrogatórios com espancamentos e «estátua».

Sabe mais, ou tem um documento? Conte-nos.

Fontes33
  1. 1A sede e as delegações da PIDE. Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  2. 2Sede da Pide/DGS (Locais de Abril). Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  3. 3Cárceres do império. Memória Comum – Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos — consultado a 2 de outubro de 2026
  4. 47. Isolamento e «celas disciplinares». Memória Comum – Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos — consultado a 2 de outubro de 2026
  5. 5Métodos de tortura. Memória Comum – Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos — consultado a 2 de outubro de 2026
  6. 6A tortura como sistema. Memória Comum – Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos — consultado a 2 de outubro de 2026
  7. 7Raul Alves. Memória Comum – Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos — consultado a 2 de outubro de 2026
  8. 8Maria da Conceição Rodrigues de Matos. Memória Comum – Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos — consultado a 2 de outubro de 2026
  9. 9À soleira da porta da Pide. Jornal de Notícias (13/3/2005) — consultado a 2 de outubro de 2026
  10. 10Sede da PIDE transformada em condomínio de luxo. Correio da Manhã — consultado a 2 de outubro de 2026
  11. 11Placa da ex-sede da PIDE: reposta mas em local escondido. Esquerda.net (29/12/2009) — consultado a 2 de outubro de 2026
  12. 12Inauguração da placa sinalizadora junto à antiga sede da PIDE/DGS. Caminhos da Memória (blogue ligado ao movimento Não Apaguem a Memória, 27/4/2010) — consultado a 2 de outubro de 2026
  13. 13Esta semana, e sempre, a rua lembra os quatro homens assassinados pela PIDE/DGS. Time Out Lisboa (1/4/2024) — consultado a 2 de outubro de 2026
  14. 14Fernando Carvalho Giesteira (biografia). Museu do Aljube Resistência e Liberdade — consultado a 2 de outubro de 2026
  15. 15José James Harteley Barneto (biografia). Museu do Aljube Resistência e Liberdade — consultado a 2 de outubro de 2026
  16. 16João Guilherme Rego Arruda (biografia). Museu do Aljube Resistência e Liberdade — consultado a 2 de outubro de 2026
  17. 17Fernando Luís Barreiros dos Reis (biografia). Museu do Aljube Resistência e Liberdade — consultado a 2 de outubro de 2026
  18. 18O golpe militar de 25 de Abril de 1974. Uma cronologia (Abílio Pires Lousada e Humberto Nuno de Oliveira), Revista Portuguesa de História Militar, IV, n.º 6. Comissão Portuguesa de História Militar / Ministério da Defesa (jun. 2024) — consultado a 2 de outubro de 2026
  19. 19Nominatim – OpenStreetMap (geocodificação). OpenStreetMap contributors (ODbL) — consultado a 2 de outubro de 2026
  20. 20Movimentações do dia 25 de Abril. Associação 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  21. 21Operação Viragem Histórica. Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril — consultado a 2 de outubro de 2026
  22. 22O 25 de Abril para os mais novos – Cronologia hora a hora. Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra — consultado a 2 de outubro de 2026
  23. 23Cronologia do 25 de Abril, por Jofre Alves (blogue Abril de Novo, 2010), na Biblioteca Digital do CD25A. Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra — consultado a 2 de outubro de 2026
  24. 24Os mortos pela PIDE em 25 de Abril. Esquerda.net — consultado a 2 de outubro de 2026
  25. 2525 de Abril de 1974. Museu do Aljube Resistência e Liberdade (EGEAC) — consultado a 2 de outubro de 2026
  26. 26Mónicas (testemunho de Magda Fonseca). URAP – União de Resistentes Antifascistas Portugueses — consultado a 2 de outubro de 2026
  27. 27Conceição Matos. Wikipédia (português) — consultado a 2 de outubro de 2026
  28. 28Mulheres do Couço. Wikipédia (português) — consultado a 2 de outubro de 2026
  29. 29PIDE: Homenagem aos quatro cidadãos assassinados em 25 de Abril de 1974. Olhares de Lisboa (abril de 2024) — consultado a 3 de outubro de 2026A Câmara de Lisboa inaugurou a placa a 3 de abril de 2024; vem substituir «a que existia até então, mas que não continha dados correctos», e tem um código QR para as biografias dos quatro mortos.
  30. 30Decreto-Lei n.º 49 401, de 24 de novembro de 1969 (Diário do Governo, I série, n.º 275). Diário do Governo (Imprensa Nacional), no Diário da República Eletrónico, 1969 — consultado a 3 de outubro de 2026
  31. 31Fernando Carvalho Giesteira. Memória Comum – Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos — consultado a 4 de outubro de 2026Dá-o com 17 anos, nascido em Vreia de Jales (Vila Pouca de Aguiar), filho de Amândio Gomes Giesteira e de Emília de Carvalho.
  32. 32João Guilherme Rego Arruda. Memória Comum – Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos — consultado a 4 de outubro de 2026Ficha de João Guilherme Rego Arruda, um dos quatro mortos pelos disparos da sede da DGS a 25 de abril de 1974.
  33. 33Anabela Mota Ribeiro, Conceição Matos e Domingos Abrantes (entrevista). Público (2014), republicada em anabelamotaribeiro.pt, 2014 — consultado a 4 de outubro de 2026Domingos Abrantes — «Fomos pela segunda vez para a clandestinidade no dia 6 de Fevereiro de 1974. À boca do 25 de Abril.»

Coordenadas: OpenStreetMap (Nominatim), consultado a 2 de outubro de 2026.

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