Nas Amoreiras, perto da Travessa da Fábrica das Sedas: o edifício da antiga Fábrica dos Tecidos de Seda, em 2024.JnpoJuwan, CC0 1.0
Santo António
Última sede do CNMP, fechada pela polícia em 1947
Em 1946, o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, presidido por Maria Lamas, mudou a sede para esta travessa das Amoreiras. A 28 de junho de 1947, a polícia fechou-a «sem aviso prévio», pondo fim a 33 anos de associação.
O Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNMP), fundado em 1914 por Adelaide Cabete, teve sede durante 32 anos no 2.º andar do n.º 13 da Praça dos Restauradores, no consultório da fundadora.7 Em 1946 mudou-se para esta travessa, nas Amoreiras1 — para o n.º 1, segundo o processo do Conselho no Governo Civil de Lisboa.8Presidia-lhe desde 1945 a jornalista e escritora Maria Lamas: com ela, muitas mulheres inscreveram-se e abriram-se delegações pelo país, onde se discutiam o analfabetismo e a situação económica das mulheres. Segundo a investigação de Rosa de Lurdes Correia, foi a mudança de sede que deu ao regime a oportunidade de intervir.1
Em 1946, a atriz Manuela Porto foi nomeada vice-presidente do Conselho,4 e a jurista Elina Guimarães foi eleita vice-presidente da assembleia geral.56 De 4 a 12 de janeiro de 1947, o Conselho organizou na Sociedade Nacional de Belas-Artes a Exposição de Livros Escritos por Mulheres: três mil livros de quatrocentas autoras de trinta países.24 Os jornais ligados ao regime, como A Defesa e o Novidades, acusaram o Conselho de ser contra o Estado Novo e de ligar o feminismo ao comunismo.1 Maria Lamas foi obrigada a escolher entre a direção da revista Modas e Bordados, de O Século, e o Conselho — e escolheu o Conselho.4
A 28 de junho de 1947, a polícia fechou esta sede «sem aviso prévio». Acabavam 33 anos de Conselho.12 Maria Lamas respondeu com um livro: entre 1948 e 1950 publicou, em 24 fascículos anunciados como «Como vivem e trabalham as mulheres portuguesas», «As Mulheres do Meu País» — uma obra que, para a investigadora Teresa Joaquim, tem neste encerramento o seu «gesto original».2
Quem mandou fechar a sede: «forças policiais» (CIG), a Polícia Judiciária (Virgínia Baptista) ou o Governo de Salazar (Teresa Joaquim). A ordem de encerramento não foi encontrada.
O ponto no mapa marca o meio da travessa, não o prédio do n.º 1 (o número vem do processo do Governo Civil de Lisboa; a FCSH+Lisboa dá só a rua, que escreve «Travessa das Fábricas das Sedas»).
O processo do Governo Civil de Lisboa (1914–1947) dá como sede do Conselho a Rua da Ilha Terceira, n.º 44, rés-do-chão, e a Travessa da Fábrica das Sedas como sede «anteriormente»: falta saber quando houve essa mudança e se a última sede fechada pela polícia, a 28 de junho de 1947, foi a das Amoreiras (como dizem a FCSH+Lisboa e Teresa Joaquim) ou a da Rua da Ilha Terceira. Só a leitura do processo (caixa 734) o resolve.
6Elina Guimarães. Wikipédia (português) — consultado a 2 de outubro de 2026
7Isabel Lousada, Adelaide Cabete (1867–1935). Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (coleção «Fio de Ariana»); Repositório da Universidade NOVA de Lisboa (RUN), 2010 — consultado a 4 de outubro de 2026Dá o consultório de Adelaide Cabete na «Praça dos Restauradores, n.º 13, 2.º», morada que era também a da sede da Liga Portuguesa Abolicionista, e a da projetada Associação de Mulheres Universitárias («Praça dos Restauradores, 13, 2.º», segundo O Povo).
8Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (processo de associação do Governo Civil de Lisboa, PT/SGMAI/GCLSB/H-B/001/13330). Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna, arquivo do Governo Civil de Lisboa (Archeevo) — consultado a 4 de outubro de 2026Processo de 1914-04-24 a 1947-11-20 (93 f., caixa 734, cota antiga «1487/A. Extintas»). A descrição dá a data da constituição, 24 de abril de 1914; a sede na Rua da Ilha Terceira, n.º 44, rés-do-chão, e, «anteriormente», na Travessa da Fábrica das Sedas, n.º 1.
Coordenadas: OpenStreetMap (Nominatim), consultado a 2 de outubro de 2026.