Estrela (segundo o OpenStreetMap)
Gare Marítima de Alcântara
Inaugurada em 1943 e pintada por Almada Negreiros, foi porta de partida e de chegada do império: daqui e da vizinha Rocha do Conde de Óbidos partiram soldados para a guerra colonial, e aqui se amontoaram, em 1975, os caixotes de quem regressava de África.
História
A gare foi feita para dar a Lisboa um cais à medida dos grandes navios de passageiros. Devia estar pronta para os visitantes da Exposição do Mundo Português, em 1940, mas só foi inaugurada a 17 de julho de 1943, com a chegada do «Serpa Pinto» e de cerca de 230 refugiados ingleses: nos primeiros anos da Segunda Guerra, milhares de refugiados esperaram neste cais por vistos e por barcos que os tirassem da Europa.123 O projeto era do arquiteto Porfírio Pardal Monteiro.2
Almada Negreiros acabou de pintar as paredes do salão em 1945. Em vez dos heróis que a ditadura celebrava, pintou a gente pobre do rio — marinheiros, pescadores e o trabalho duro das carvoeiras no cais —, e as pinturas causaram desconforto às autoridades.45
Por este cais partiram colonos para Angola e Moçambique e chegaram estudantes africanos para a Casa dos Estudantes do Império, e também mulheres e homens africanos que vinham trabalhar como criadas e criados em casas de patrões brancos.16 Com a guerra, a partir de 1961, partiram daqui e sobretudo do cais da Rocha do Conde de Óbidos, um quilómetro para nascente, os soldados.714 A RTP filmou embarques no cais de Alcântara em 1961, 1962 e 1964.8910
Em 1975, com as independências, chegaram de África mais de meio milhão de pessoas, e os caixotes com o que puderam trazer cobriram o cais durante meses.6 Em outubro desse ano, a RTP filmou «retornados» de Angola a levantar os seus haveres nas docas de Alcântara; em 1977 ainda havia caixotes guardados no cais.1112 O mesmo porto que viu partir os soldados, escreve a historiadora Cátia Antunes, viu chegar os «retornados» e os seus pertences, que aí se acumularam durante muitos anos.15 Hoje, a gare acolhe o Centro Interpretativo Murais de Almada nas Gares Marítimas.13
Onde
Mapa com a localização de Gare Marítima de Alcântara.
Abrir no mapa de Lisboa Ir a pé até lá
Perto daqui

Doca de Alcântara (ataque ao cargueiro «Cunene»)
180 m · 3 min a pé

Rua da Creche (local do assassinato de José Dias Coelho)
730 m · 10 min a pé

Palácio da Cova da Moura
880 m · 15 min a pé

Datas
17 de julho de 1943
Inauguração da gare, com a chegada do «Serpa Pinto» e de refugiados da guerra.
1945
Almada Negreiros acaba as pinturas murais.
24 de agosto de 1961
A RTP filma um embarque de tropas para a guerra colonial no cais de Alcântara.
16 de julho de 1962
Embarque de tropas no «Niassa», no cais de Alcântara.
outubro de 1975
«Retornados» de Angola levantam os seus haveres nas docas de Alcântara.
setembro de 1977
Ainda há caixotes de «retornados» guardados no cais.
ago. 1975
A «ponte aérea» traz de Angola mais de 228 mil pessoas
Notas sobre as fontes1
- Em que anos, além dos filmados pela RTP (1961, 1962 e 1964), embarcaram tropas no cais de Alcântara: o principal ponto de partida foi o cais da Rocha do Conde de Óbidos.
Sabe mais, ou tem um documento? Conte-nos.
Fontes15
- 1Cais. Centro Interpretativo Murais de Almada nas Gares Marítimas (Câmara Municipal de Lisboa, Administração do Porto de Lisboa) — consultado a 3 de outubro de 2026
- 2Passagens. Centro Interpretativo Murais de Almada nas Gares Marítimas (Câmara Municipal de Lisboa, Administração do Porto de Lisboa) — consultado a 3 de outubro de 2026
- 3Diz que disse (cronologia das pinturas murais das gares). Centro Interpretativo Murais de Almada nas Gares Marítimas (Câmara Municipal de Lisboa, Administração do Porto de Lisboa) — consultado a 3 de outubro de 2026
- 4O que contam as paredes. Centro Interpretativo Murais de Almada nas Gares Marítimas (Câmara Municipal de Lisboa, Administração do Porto de Lisboa) — consultado a 3 de outubro de 2026
- 5Gare Marítima de Alcântara (os murais). Centro Interpretativo Murais de Almada nas Gares Marítimas (Câmara Municipal de Lisboa, Administração do Porto de Lisboa) — consultado a 3 de outubro de 2026
- 6Chegadas. Centro Interpretativo Murais de Almada nas Gares Marítimas (Câmara Municipal de Lisboa, Administração do Porto de Lisboa) — consultado a 3 de outubro de 2026
- 7Partidas. Centro Interpretativo Murais de Almada nas Gares Marítimas (Câmara Municipal de Lisboa, Administração do Porto de Lisboa) — consultado a 3 de outubro de 2026
- 8Embarque das tropas para o Ultramar (Telejornal, 24 de agosto de 1961). RTP Arquivos, 1961 — consultado a 3 de outubro de 2026
- 9Embarque de tropas para o Ultramar (Noticiário Nacional, 16 de julho de 1962). RTP Arquivos, 1962 — consultado a 3 de outubro de 2026
- 10Embarque de tropas para o Ultramar (Noticiário Nacional, 8 de janeiro de 1964). RTP Arquivos, 1964 — consultado a 3 de outubro de 2026
- 11Retornados de Angola (Noticiário Nacional, 16 de outubro de 1975). RTP Arquivos, 1975 — consultado a 3 de outubro de 2026
- 12Caixotes de retornados em Lisboa (Noticiário Nacional, 20 de setembro de 1977). RTP Arquivos, 1977 — consultado a 3 de outubro de 2026
- 13Bilheteira (preços e horário). Centro Interpretativo Murais de Almada nas Gares Marítimas (Câmara Municipal de Lisboa, Administração do Porto de Lisboa) — consultado a 3 de outubro de 2026
- 14Partida de tropas para o Ultramar (Noticiário Nacional, 12 de janeiro de 1962). RTP Arquivos, 1962 — consultado a 3 de outubro de 2026
- 15Cátia Antunes, Porto de Lisboa. Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra — projeto ECHOES (exposição Lisboa) — consultado a 3 de outubro de 2026
Coordenadas: OpenStreetMap (way 98960366), consultado a 3 de outubro de 2026.